Sexta-feira, dita Santa, pertencente à semana de mesmo nome.
Dies irae, dies illa solver saeculum in favilla teste David cum Sybilla, quantus tremor est futurus quando judex est venturus cuncta stricte discussurus…
Dia de visita ao Cemitério Paroquial de Campo Comprido. Aliando a data em que católicos veneram e relembram a morte de JC, fomos levar flores aos pais (eu) e à mãe (elas). Saímos às 8h15, de Uber para uma viagem de 10km, abrilhantada pela conversa com o condutor, jeitão e sotaque de índio boliviano.
Falamos do clima, do trânsito fácil do feriado. No banco de trás, elas continuam a conversinha habitual, sem chance de se entender qual é o assunto.
O cemitério : primeira parada no jazigo “dos meus”. Não há ninguém além de nós por ali. Elas se persignam e murmuram – imagino que – orações. Já eu permaneço mudo e observo o estado de conservação da sepultura : calculo que as rachaduras aparentes devam ser recuperadas.
Próxima visita : descendo cinco aleias, acompanhando a topografia. Este campo santo está num terreno inclinado em toda sua extensão. Na visão lateral divide-se em dois segmentos : o mais antigo, à esquerda de quem entra, mostra Sá construções tradicionais, cada um com seu desenho, alto, baixo, com ou sem gavetas aparentes.
Do lado direito, a parte nova, que difere integralmente pois obedece a um padrão : todos os túmulos são retangulares, baixos, iguais no formato e material, formando um desenho uniforme. Harmônico, não.
De modo que a arquitetura se intromete em tudo, seja com vivos seja com os mortos.
As ruas, simétricas, são nomeadas por letras e números centesimais, tudo muito impessoal, ao contrário dos moradores, com nome, sobrenome, datas, referências, na vã tentativa de mantê-los neste mundo dos vivos
Encontrado o “endereço” da família, elas repetem os gestos e orações, agora com lágrimas. Mantive a postura e, discretamente, fotografei os entes queridos para enviar aos filhos, que pelo andar da carruagem, jamais farão uma visita dessas.
Secando as lágrimas, as duas adornaram a lápide com as flores que levaram, menos as velas que esqueceram em casa.
Na tentativa de remediar a falta, subiram até a recepção-escritório para comprar fósforos e velas mas “bateram com o nariz na porta”.
Até agora, apenas nós três somos visitantes. Aparece apenas um casal de velhotes, sobraçando capacetes de motociclistas, contraste que chama a atenção, pelo inusitado do traje com o local.
Terminadas as orações, comento que aprendi com um de meus irmãos que se deve fazer uma oração na Cruz das Almas, nome dado ao monumento ao pé do qual estão as sepulturas simples daqueles que, como eu, não adquirem jazigo perpétuo.
Esta oração serve para encerrar a visita e dissipar a energia negativa circulante.
Dessa parte final do cemitério se observa a torre altíssima. Esta me dá a impressão de mostrar que, cá embaixo, enterrados estamos todos nós.
Subimos as aleias em direção à igreja. No interior, os fiéis estão em vigília.
Minhas acompanhantes oram mais uma vez. Contemplo as imagens cobertas com panos roxos. Perguntam-me o porquê. Luto, o Senhor está morto, explico.
A visita se encerra. Solicito o Uber, logo chega um e troco o silêncio e recolhimento pela tagarelice de sempre. O clima, a política, os preços e trinta reais e uns solavancos após, estamos em casa.