Poema para um gato, de Pablo Neruda

ODA AL GATO, de Pablo Neruda, in “Navegaciones y regresos, ed.Losada, Biblioteca Clásica e Contemporânea, Buenos Aires, AG, 1959.

Los animales fueron imperfectos, largos de cola, tristes de cabeza.

Poco a poco se fueron componiendo

Haciéndose paisaje, adquiriendo lunares, gracia, vuelo.

El gato, solo el gato apareció completo y orgulloso : nació completamente terminado, camina solo y sabe lo que quiere.

Eu hombre quiere ser pescado y pájaro, la serpiente quisiera tener alas, el perro es um León desorientado, el ingeniero quiere ser poeta, la mosca estudia para golondrina, el poeta trata de imitar la mosca,

Pero el gato

Quiere ser sólo gato

Y todo gato es gato desde bigote a cola

Desde presentimiento a rata viva, desde la noche hasta sus ojos de oro.

No hay unidad como él, no tiene la luna ni la flor tal contextura :

Es uma so cosa como el sol o el topacio,

Y la elástica linea em su contorno

Firme y sutil es como la linea de la proa de uma nave.

Sus ojos amarillos dejaron uma sola ranura

Para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño emperador sin orbe,

Conquistador sin patria, mínimo tigre de salón, nupcial sultan del cielo

De las tejas eróticas, el viento del amor en la intemperie

Reclamas cuando pasas y posas cuatro pies delicados en el suelo, oliendo,

Desconfiando de todo terrestre,

Porque todo es inmundo

Para el inmaculado pie del gato.

Oh fiera independiente de la casa, arrogante vestigio de la noche,

Perezoso, gimnástico y ajeno,

Profundísimo gato,

Policia secreta de las habitaciones, insignia de um desaparecido terciopelo,

Seguramente no hay enigma em tu manera, tal vez no eres misterio,

Todo el mundo te sabe y perteneces al habitante menos misterioso,

Tal vez todos lo creen dueños, propietarios, tíos de gatos, compañeros, colegas,

Discipulos o amigos de su gato.

Yo no.

Yo no subscribo.

Yo no conozco al gato.

Todo lo sé, la vida y su archipíélago, el mar y la ciudad incalculable,

La botánica,

El gineceo com sus extravíos,

El por y el menos de la matemática,

Los embudos volcánicos del mundo,

La cáscara irreal del cocodrilo,

La bondad ignorada del bombero,

El atavismo azul del sacerdote,

Histórias, mas não de minha autoria

O Grande Montador de Telhados


10-07-2023 02:00 da madrugada, acordei de mais um lindo e longo sonho.

Assim:

“-Sempre tive vontade de fazer um plano de viagens, fazer turismo pelo Brasil, e também para outros países”, comentei à um amigo que não lembro quem , num certo lugar que não recordo onde.

“- Entretanto,” tornei, ”- Poderia ter mais graça, se esta viagem pudesse ter um objetivo definido, como “um pacote rumo à Copa do Mundo na Alemanha, ou algo do gênero!”.


Neste mesmo instante, vi-me transportado à um outro país,Alemanha ou Espanha, não sei, nos arredores de uma pequena cidade, próximo à um imenso Estádio Esportivo. Estava numa pequena estrada de pedras ao alto de um morro. Dali notei que os portões daquele estádio encontravam-se abertos e haviam muitas pessoas nas arquibancadas.

Como em fila, outras, com muita pressa, passavam por mim, dirigindo-se aquela praça de esportes.

Notei que os lábios de nenhum deles movia-se. Não emitiam um único som.

Mas havia, entretanto uma perfeita comunicação entre si.

Comunicavam-se por sorrisos.

Sorrisos de muitos mundos.

Sorrisos de muita Luz.

Pareciam transbordar alegria e felicidade.


E eu ali, no alto daquele morro, tudo observava.

Num determinado momento indaguei-me: “-Que lugar é este, quem são estas criaturas, de onde vem e o que buscam naquele estádio?”


Bastou pensar, quando de repente, uma senhora aparentando meia-idade, interrompendo o seu percurso, pôs-se o meu lado e, num leve roçar em meu braço interrompeu-me os pensamentos.

De de seus lábio não saiu uma única sílaba. Mas em compreensão, disse-me:

“-Vamos ao Estádio Municipal, vê aquêle lá?” E apontava para baixo com a ponta do nariz num modo muito peculiar.

“-E o que tem lá de especial ?”, tornei, sem também mover um único músculo facial.

“-Há!”, exclamou. “- Hoje tem uma especial palestra com O Grande Montador de Telhados, que nos contará lindas histórias!”, concluiu aquela simpática senhora, que no momento encontrava-se já um tanto distante de mim, despedindo-se com um delicado e leve aceno.

No momento em que agradecia aquelas informaçoes, vi-me logo transportado para um outro lugar próximo dali.

Um lugar plano, com árvores e uma pequena estrada ladeada por barrancos não muito altos.

Sem saber qual direção tomar pus-me a seguir em frente por aquela estreita estrada a partir da posição que estava.

Pelo barro que tinha no caminho, parecia haver chovido há pouco, mas, estranhamente meus pés não tocavam o chão..

Pus-me a “andar” por aquela estrada barrenta até deparar-me a uma cerca com uma pequena porteira interrompendo meu caminho.

Parecia uma entrada de fazenda com o terreno todo cercado com palanques espaçados e abertos entre si como se ali houvessem arames.

Havia ali uma sensação de intransponibilidade naquele local, mas, como sentir isso, se havia apenas um porteira e palanques vazios não cercados ?

Com o coração ao pulos aproximei-me daquele grande portão de madeira e notei que não havia tranca sequer.

Sentia que deveria entrar, passar por ali, SÓ QUE havia algo de enigmático naquele local que causava-me mêdo e ansiedade.

Não havia mêdo pelo que poderia encontrar ali, mas sentia um grande temor em não conseguir transpor aquela barreira intrusa,…

E com o coração ainda batendoforte, lancei uma prece ao Universo pedindo para ser aceito naquele lugar.

Necessitava seguir…

Saber quem habitava ali…


Conhecer quem me esperava..


Aproximei-me, e o portão logo abriu-se sem te-lo tocado, e atrás de mim senti uma leve brisa impelindo-me a seguir.

Voltei-me por instantes e esta acariciou-me o lado esquerdo do rosto fazendo-me arrepiar, esquecer quem eu era e tudo mais com tão maravilhosa sensação.

Com lágrimas inundando-me os olhos e uma total leveza no corpo, notei que tudo brilhava à minha volta. .

E vi-me também envolto naquela radiante manta….


Não sei quanto tempo fiquei a contemplar toda aquela Magia.


Num passe rápido, não mais haviam cercas nem porteira de madeira…

Apenas um caminho a seguir.


Pus-me então caminhar por aquela estrada cujo barro já estava sêco.


Deparei-me logo com longas pilhas de telhas de barro numa altura de 2 metros.

Telhas usadas que impediam-me de seguir adiante.


Consultei meu sentimento e este inspirou-me a transpo-las vagarosamente usando muita observação e sensibilidade no coração.

Assim fiz, subi naqueles acúmulos..


Ao transpor a carreira inicial de telhas, observei que estas, elaboradas em barro grosseiro, estavam sujas, envelhecidas, com aparência putrefata e triste .

Pensei: – “Apesar da leveza que estou sentindo, qualquer peso que reste, ao pisar, poderia ocorrer quebras”!

Mas, isto não aconteceu , e senti que deveria seguir pisando-as.

Até parecia que aquelas tôscas e apodrecidas telhas desejavam que fizesse isso…

Consultei o coração e percebi que estas tristes coberturas deram abrigo a sêres de extrema pobreza de espírito, com muita amargura e infelicidade no coração, por isso apresentavam esta aparência tosca e primitiva.

E na medida que seguia, por pensamento escutei velhas histórias contadas pelas velhas telhas.

Histórias que não desejava ouvir .

Histórias de lamento, choro e muita solidão.

Histórias que enchiam minha alma de pena.

Histórias que deixavam muita tristeza no coração.


Aquelas miseráveis telhas queimavam e meus pés pareciam estar pisando em brasas, tamanha a quentura que emanavam.

Mas todo este terrível calor desaparecia a cada passo dado adiante e ao olhar para trás notava que aquelas antes tôscas, e velhas feias telhas de barro ruim, tornavam-se agora novas e de barro bom.

Mágicas telhas novinhas para uma nova e linda moradia…

Desci, finalmente daquele monte transformado e de alma feliz, e segui adiante.


Logo adianta deparei-me com uma nova pilha e novamente subi.


Era um monte de telhas bem maior, de barro bom, com uma leve pelicula como cobertura.

Eu deveria admirar-me com a beleza daquelas lindas coberturas.

Observei a sua textura e percebi que eram duras como rocha, mas notei, entretanto que eram frias como a neve e imediatamente senti meus pés gelarem.

Aquela frieza causou-me aflição.

A cada pisada, meus quentes pés gelavam gradativamente e pareciam sucumbir.

Então parei, e voltei o pensamento para o coração tentando entender o que estava sentindo por aquelas lindas telhas…

Não consegui, por pensamento ouvir nenhuma história ali, uma mudez total.

Senti, então, que aquele gêlo era fruto da indiferença.

Entendi, que aquela algidez nos pés, era devido àquela película que isolava e não deixava revelar o verdadeiro sentimento , representava o isolamento a indiferença e ausência de sentimento daqueles que viveram sob aquele teto.

Entretanto, debaixo daquela frieza irradiava uma imensa energia revelando sêres de imensa doçura e bondade, porém alheios a verdade e vivendo um mundo só dêles, desprovidos de quaisquer sentimentos de solidariedade.

Fechei os olhos, imaginando todos aqueles que viveram sob aquelas lindas e frias telhas, incluindo-os numa imensa corrente de humildade, fraternidade e amor.


Como num passe de mágica, e como se raios do sol os atingissem , meus pés começaram a aquecer-se e a cada passo dado, não mais sentia a frigidez daquelas pobres telhas.mi

E ao olhá-las notei que aquela película protetora não mais existia, e aquelas telhas, desta vez sem falsas aparências estavam prontas para cobrir uma nova e verdadeira moradia…

Minha alma transbordava de felicidade, ao olhar para aquelas telhas novinhas, de barro bom e sem película isoladora, que pareciam saudar-me.

Desci daquele monte agora aquecido e segui em frente.

Encontrei nova pilha de telhas. Eram feitas em barro bom, com uma camada de proteção cozida na mesma têmpera e de boa procedência. Ao invés de subir neste novo monte, por pensamento foi –me sugerido entrar dentro dêle através de uma brecha, como numa caverna.

Mas ali não havia escuridão e sim um ambiente amplo e bem iluminadao.

Notei que realmente ali era como uma uma imensa caverna, um templo, com muitos pilares de sustentação, todos formados por boas telhas de todos os tipos e textura, que emanavam muita energia.

Maravilhado, vi muitos e todos os tipos de telhas: – Maiores, menores, e de todas a dimensões possíveis e imagináveis.

Tinha até telhas simbolizando as cores do Taj-ma-hal em tons de mármore branco, mas que assumiam tons em rosa na medida que a iluminação mudava.

Haviam, entretanto, telhas empilhadas em diversos cantos abandonadas pobremente naquele templo.

Consultei novamente o sentimento e notei que estas emanavam muita energia boa, mas eram possuidoras de uma aparência triste causada pelo abandono e pela aparente inutilidade.

Apanhei algumas e notei que eram imperfeitas se comparadas aos padrões, dimensões e arquitetura das demais. Estavam lá, empilhadas pelos cantos como estorvo, não utilizadas, intocadas. Senti, que para as demais e perfeitas telhas, estas imperfeitas eram discriminadas, desnecessárias, descartáveis , inúteis.

Toquei-as e senti que a energia que emanavam era imensa. Aquele bom calor aquecia meu coração fazendo-o transbordarde alegria e emoção.

Quanta coisa boa vinha de lá…

Senti que as demais telhas perfeitas estranhavam a minha especial atenção e interêsse por aquelas abandonadas e “inúteis” telhas empilhadas pelos cantos.

Por breve instantes julguei-as más, impertinentes e egoístas, porque julgavam-se superior aquelas que não serviam para cobrir telhados.

Logo, logo, então, refleti que esta rejeição estava na ignorância do seu fabricante e montador ao torná-las inúteis.

Fechei os olhos e imaginei as imperfeitas telhas ao lado das “perfeitas”habitando o mesmo ambiente e aconchego.

Neste momento, aquelas perfeitas telhas ao meu redor também sonharam o mesmo sonho meu .

E, num passe de mágica, as imperfeitas telhas não mais estavam empilhadas naqueles lúgubres cantos do abandono.

Meu coração novamente transbordava de emoção ao ver aqueles mesmos como iguais:


-“Telhas <perfeitas> cobriam e sustentavam aquela caverna e as <imperfeitas> ornamentavam gerando muito encanto em lindos e multicoloridos vasos de flores e muitas lanternas de luz, transformando e tornando maravilhoso aquele imenso templo.” !

Notei, coisa que não tinha observado até então, que aquelas telhas perfeitas e aquelas consideradas agora especiais, possuiam lindos rostos humanos entalhados no seu centro. Nêles havia um sorriso de bondade e em

seus olhos vertiam lágrimas de brilhante felicidade.

Ao afastar-me deles, notei uma forte emanação, como se fumaça fosse, um imenso pilar de luz ligado ao Universo.

Sai daquele templo de telhas e segui até …

Encontrar um novo e fulgurante monte de telhas levemente esverdeados, cor de erva~mate.

Sentia um leve aroma de chimarrão à medida que me aproximava daqueles tetos empilhados sem quaiquer cuidado

Eu conhecia aquelas telhas, meu triste coração dizia que elas não deveriam estar ali, mas no solar em pé, na rua Tnte. Max Wolff Filho, 439 na cidade de São Maeus do Sul como patrimõnio histórico construído nos anos 20 do século XX num período de abundância na exportação de erva-mate,período de muit riqueza local…

Minha família, minha história de vida, estava armazenada naquelas telhas!

Subindo naquele monte, notei que já não mais pisava em telhas, mas em fotografias de todos os tamanhos, contando-me a história da família Guimarães em quatro gerações em preto e branco e a cores…

Enquando passava por aquela imensidão de fotografias, quadros e retratos, apanho uma especial com o tio Leonício com um violão cor de jade que era da vó Hilda. Imediatamente vejo-me transportado no espaço-tempo para:o distante ano de 1964, num sábado, eu estava lá nos meus memoráveis treze anos na captura da imagem pela Rolley Flex do meu pai, na varandola do Solar dos Guimarães.

O fotógrafo focava o principalmente o violeiro, que no momento cantarolava modas sertanejas acompanhado do belo violão. Ao lado dele mais ao fundo à esquerda estava o vô Simplício, que logo após o banho, sentava-se no seu tradicional banquinho. Naquele momento brincava com a prima Ceni ainda criança, tendo ao fundo como paisagem a casa do seu Faty Kaminsky.

Enquanto viajava no tempo com todas aquelas lembranças vi-me transportado para dentro da vibração das cordas daquele fabuloso violão, cujas notas entoavam uma moda de viola” Linha de Frente” de Tião Carrero e Pardinho, que cantava assim:

” Pra cantar pagode eu tirei patente
Meu peito é bom e eu sou competente
Eu não tomo toddy e nem ovo quente
Morra meu passado viva o presente
Que o meu futuro está pela frente…”

Ainda de olhos fechados, no mesmo instante notei que aquelas cordas de aço já não vibravam sob o ritmo cateretê, mas ao som de um outro ritmo, e quem estava agora ao violão não era mais o tio Leonício mas sim a vó Hilda que dedilhava uma linda valsa brasileira, Branca.

Embalado por aquelas ondas sonoras transportei-me desta vez aos anos 20 para Rio Negro, uma cidade não muito longe dali, onde vislumbrei uma jovem professora sendo conduzida em sua carruagem, por um jovem cocheiro.

Seu nome era Hilda e, no momento retornava da escola em que lecionava, numa breve parada próximo á praça principal, um jovem elegante aproxima-se da charrete, cumprimenta-a e inicia as devidas apresentações. Entretanto a jovem, sem o menor intenção de dar atenção ao elegante interlocutor, pede para o cocheiro acionar os cavalos e sair no mesmo instante dali.

Numa rápida e inesperada e brusca ação o galante interlocutor bruscamente resolve tomar as rédeas do jovem cocheiro e esperar que a senhorita respondesse, cuja resposta que teve foi de uma rápida e breve chicotada, partindo em seguida.

E assim, desta maneira tão singular começou o namoro de Hilda e Simplício, que logo casaram foram morar em São Mateus do Sul inicialmente na Fazenda do bisavô Francisco no Potynga, onde minha mãe Linnéa nasceu, e depois no Solar dos Guimarães, doada para meu avõ Simplício na cidade,cuja construção já havia sido concluída e no início dos anos 30.

O Solar dos Guimarães construído na década de 1930 foi a primeira casa em alvenaria da cidade, cuja construção era reflexo da pujança da era do mate, que era a riqueza principal da cidade, considerada à época como Terra do Mate, com movimento intenso de navios no seu porto levando a erva mate para todos os cantos do mundo…

Despedi-me daquelas lembranças familiares e segui adiante pela estrada onde, após alguns passos, vi-me ao lado de uma pequena cabana feita em tábuas de todos os tamanhos e proporcões, toda pintada numa mesclagem única.

Realmente não haviam tábuas iguais e a pintura era uma só cor, no telhado havia cobertura de telhas perfeitas

e imperfeitas, e dentro, muitos vasos de flôres e lampiões feitos com telhas especiais que davam muita vida e luz aquela humilde choupana.

Fui recebido por um senhor não muito idoso, ou seja, nem muito novo, nem muito velho. Com os braço abertos em sinal fraterno, carinhosamente, fez-me entrar.

Falava comigo por pensamento num dialeto que eu desconhecia, entretanto, numa tradução instantanea, fazendo-se entender, apresentou-se a mim como “montador de telhados”.

Com um único gesto, chamou-me próximo à janela e mostrou-me um terreno ao lado com um imenso barracão industrial, rodeado de uma grande cerca com arames farpados totalmente eletrificada, e vigiado por muitos e ferozes cães com suas afiadas mandíbulas.

Ao fundo e ao lado deste barracão e em quase todo o terreno., haviam imensas pilhas de telhas velha e novas, ao relento. Telhas tristes e aprisionadas como se almas ainda tivessem, mas que não mais lhe pertencessem…

Ainda sem falar uma única palavra., e só por pensamento, considerou-me que o dono daquela área toda cercada era alguém muito poderoso, que possuia muitas e muitas telhas, aprisionava-as e as destruia, sem construir um único telhado para abrigo. Tinha-as pelo tempo que desejasse e delas era senhor, com o poder da destruição quando bem desejasse.

Tomado pela emoção, o Montador de Telhados fitou-me profundamente e, meus olhos viram brotar dos seus duas lágrimas que rolaram pelo rosto

Agora, debruçado ao parapeito da janela daquela cabana contou-me toda sua história de vida como montador de telhados e meu coração sentia um pedaço de alma e história de vida a cada telha retirada.

História real a cada telha retirada, que contava a alegria das festanças da fartura, a sensualidade, a felicidade das núpcias, o aconchego dos filhos, o andar rápido da vida e o passo vagaroso da velhice.

Também histórias tristes com a infelicidade da separação, vícios e morte.

Histórias de ventos, vendavais e a tristeza da estiagem.

Sua alma estava repleta de histórias contadas pelas telhas e em todas pude entender que a linha tênue que separa a felicidade do infortúnio é a a mesma que acorrenta o amor…

O som da sua voz no meu pensamento era muito suave e as palavras eram constantes com pequenas pausas.

Pausas que traziam momentos de profunda reflexão em minha alma. E vi que seu maior sonho era construir muitos telhados com aquelas telhas ali aprisionadas no terreno ao lado.

Dizia-me, que aquelas subjugadas telhas eram boas, mas venderam-se em troca de vantagens, e a partir daí nunca mais foram donas de si, e ficaram aprisionadas infinitamente por aquela cerca e vigiadas por ferozes cães.

Novamente consultei o sentimento, fechando os olhos, mentalizando aquelas infelizes telhas prisioneiras, e percebi horrorizado que a energia que eletrificava aquela imensa cerca e a comida que alimentava aqueles ferozes cães, era fornecida por nós mesmos, em cada mentira, cada blasfêmia, pela corrupção, pelas discriminações, pela arrogância e principalmente pela mentira e pela vaidade!


Logo, após isso, saí daquela pequena e aconchegante cabana, vi-me transportado para um imenso estádio, totalmente lotado.

Sem dizer uma única palavra e apenas por pensamento ali falava o Grande Montador de Telhados para aquela imensa platéia!

——————-

“O espírito ‘a vida que sacrifica a própria vida”.

Ivan Carlos Guimarães Guedes

10-07-2023

No Parraná é di ansim que se fala

Causos do Isidório

“Pregado na parede do armazéi tinha um cartais anunciando um grandiozo baile de carnavá na cidade com uma déssas banda famósa, os “Pára-choque do Fracaço”. Dizia no cartais qui quéi formasse uns blóco de carnavá só pagava metade da entrada.

Déu o maió ribuliço na region, éra só gente comentando qui iam no tal baile e tavam tudo preparando as fantasia pra formá os blóco pra pulá no salon. Inté cunvidaro iéu pra i junto no blóco dos marinhero, iéu non achô boa idéia inté proque aqui na roça num téi mar e néi naviu. Veio tambéi o pessoal dos prisidiário cumas ropa listradinha cunvidando iéu, mais cumo quiá iéu vai de preso siá inté hoje nunca posô nenhuma noite na cadeia, nun era dessa véis qui ia mi visti de zebra.

Pro fim o pessoal dos fantasiado de jogador de futeból co corintcha, até achei qui pudia aceitá, inton oferecero a camisa dum tál de Ronardo Gordo, quiriam mi pintá de iscurinho e ponhá uns dente postiço qui néi coeio e inton pulei fora, vai que apareçam uns camarada vistido de muié e queram me atacá.

Sendo ansim, já tava quase qui disistindo da idéia de i no tal do baile quando veio idéia de mi fantasiá de espantaio, era só ponhá umas paia nas manga, nas calça e abri os braço. Funcionô direito, me preguntaro na entrada onde tava o resto do blóco e iéu falô qui espantaio só téi um na roça e os passarinho iam chegá mais tarde.

Me dexaro entrá e era um baile diferente, tudo mundo fazendo treizinho, pulando abraçadinho dando vórta no salon, cantando aquela marchinha cunhessida do tipo “oia cabeléra do Polaco, será qui iele é fraco, será qui iele é fraco” ou inton, “mai iéu quero, mamai iéu quero, mamai iéu quero pastá”; tinha os otro qui cantava “dotô iéu non mi ingano, méu coraçon é ucraniano”.

Iéu ali parado cos braço aberto sin si mexê até qui o cantor da banda convidô iéu pra cantá uma musca já qui iéuásô meio metido a cantor. Disse qui non só pra fazê cena mais o povo intero pidiu qui iéu cantasse umazinha só e lá foi iéu pra cima do palco. Mi déro o micronfone e inton tasquei umas polaquera do tipo “pidolido sonsoronzo sonsoronzo pidolido” e mintusiamei e fiquei ali cantando qui néi passarinho

e vistido de espantaio.

Quando abri os zóio vi qui o pessoal pararo de dançá e mi oiavam cumas cara isquisita, os vistido de índio começaro a me atirá fléxa, as de baiana tiraro as banana da cabeça e jogaro ni iéu, os ca cara do Lula pararo de tomá cachaça e diziam bobage inté qui mi ispantaro do palco.

Desgracera mésmo, priméra féis qui ispantam o espantaio. Agora iéu vai ter qui agüentá 40 dia de quaresma pra voltá a cantá nos pálco, inda béi que carnavá é só uma véis no ano.”

Histórias – 4

Na rua

Saí para caminhar hoje de manhã, não tão de manhã assim porque acordei depois das 8h apesar de ter ido me acomodar às nove e meia ontem. Dormi muito, dormi demais, estava cansado não sei do quê.

Incluí na caminhada uma parada no Santarelli e comprar uma pilha grande para o aquecedor a gás, esses dias reinando para acender. Apesar de ter substituído a anterior no dia 14 de abril,  esta pilha já estava pifando. Hoje desmontei os terminais, limpei os filtros e nada. Continuou com acendimento irregular.

Por isso resolvi trocá-la. Na loja, de cara o vendedor perguntou: é para aquecedor? Sim, é.

Então o senhor compre a alcalina porque a simples não dura muito.

Sério? Quanto custa a simples? e esta alcalina?

A comum é 3,50 e a alcalina 27,50.

Grande a diferença. Resolvi apostar na dica do cidadão. Fui pagar com meu novo cartão de crédito e débito PicPay, por aproximação. E funcionou direitinho, sem senha, sem nada.

O senhor quer o cpf na nota? Sim, faz favor. Pode dizer. E eu: zero meia oito e….travei, esqueci total. Tentei recitar, nada. Pensei, parei, tentei, nada ainda.  Liguei o celular, procurei nos documentos, não achei. Desisti.

Após três ou quatro quadras andando, surgiu o número completo na mente. Ri sozinho, estou ficando esquecido.

Continuei o passeio e parei no Sebo Pelegrini, lá nas alturas do Externato São João, onde já tinha caçado pela Estante Virtual o livro que procurava.

Nada. Já tinha sido vendido. Perdi a viagem.

Não lembro o porquê mas o véinho da loja puxou conversa e lá fomos contando histórias sem que eu comprasse nada e nem ele  tentasse me vender.

O assunto virou em “qual é sua idade”, “onde trabalhou” e por aí vai.

Quando percebi, a prosa deslanchou, apareceu mais um velhote, entrou no papo, surgiu outro e mais um. Não demorou muito, já parecia uma longa amizade, cada um contando histórias e vantagens.

A principal foi a do primeiro vendedor, que enveredou a contar e mostrar suas habilidades para consertar relógios antigos. Aí foi minha vez de dar palpite quando ele mencionou que não existia mais a benzina – benza-me Deus, que coisa antiga – para limpar os mecanismos delicados dos cebolões.

Era minha deixa para contar como se produzia gasolina, querosene e solventes, produtos da refinaria da qual fiz parte durante dezesseis anos aqui.

Foi quase uma hora nesta conversa, fiada mas agradável. Gosto de falar com pessoas na rua, principalmente as mais velhas, sempre propensas um papo.

Na verdade, quanto mais velho se fica mais solitário se é ou se sente. E dar atenção a essas figuras é uma forma de caridade, ou compaixão no vocabulário budista.

De volta para casa, após 4km e duas paradas, tomei um mate caprichado aguardando a chegada de Belzinha para almoçarmos juntos, quando aproveitei e contei essa e outras pequenas aventuras.

Histórias – 3

Tarde de autógrafos

Foi ontem, sábado, dia 30 de julho de 2022, às 14h, na Livraria Pontes, da rua Doutor Quirino, no centro velho de Campinas.

A Livraria Pontes pertence aos irmãos Eva e José Reinaldo, nossos amigos. Certamente é a última loja de livros desta cidade a permanecer em funcionamento; todas as outras já fecharam as portas, vítimas de tantas crises por que passam os negócios no Brasil.

O acervo é seleto, dedicado às artes e ciências principalmente; nada de autoajuda, best-sellers e bobagens afins.

José Reinaldo é um entusiasta de James Joyce e não perde nenhuma efeméride de Saint Patrick e a Irlanda. Um hábito que mantém é o de frequentar pubs em São Paulo nas datas comemorativas do mais famoso escritor irlandês de Ulisses e Contos Dublinenses.

Eva nos apresentou os segredos do Qi Gong e Lian Gong, com o mestre chinês Tzai e o Sensei Iba nos idos de 1998.

Ao par dessas atividades, retribuímos a ela a prática de meditação Zen.

E assim passaram-se todos esses anos de amizade e convivência, com períodos de interrupção mas sem perder o contato e a amizade.

Contei toda essa história para introduzir o assunto de hoje: a visita de outro amigo de longa data, Juli Manzi, músico, escritor, jornalista, compositor, produtor de conteúdo digital.

Na citada Livraria Pontes ele fez o lançamento de seu livro “Odisseia, Júpiter Apple History”, biografia do roqueiro porto-alegrense Flávio Basso.

Essa é uma longa história. Juli Manzi, também porto-alegrense, apareceu em nosso círculo de interesses através da Unicamp, onde veio fazer sua pós-graduação na área de música no Instituto de Artes, em 2000.

Descobriu nosso grupo de meditação e logo aderiu às reuniões. Encerrado seu ciclo de estudos aqui, seguiu para outras plagas e aventuras.

Voltamos a nos encontrar em 2016. Aqui esteve para lançar a primeira edição deste mesmo livro no Centro de Convivência Cultural, disputando a freguesia da Feira de Artesanato.

Agora, seis anos após, lá vem ele novamente com a reedição da obra, em formato luxuoso, capa dura, papel especial.

Até aqui tudo certo.

A questão é: cadê o público para prestigiar, conhecer, comprar o livro?

Praticamente ninguém apareceu, apesar da divulgação nas redes sociais e no jornal Correio Popular, diário campineiro.

Quando cheguei com Marly não havia ninguém além do autor e do staff.

Às duas e meia, surgiram dois casais jovens, roupa preta, silenciosos.

O autor começou a cerimônia, fazendo a leitura e apresentação.

Chega outro casal, velhotes, com o filho com cara de velho também.

A senhorinha dá uma espiada geral e já se levanta em busca de um café e bolo. O marido refuga, o filho também, mais interessados na apresentação.

O senhorzinho começa uns apartes, mostrando que conhece o assunto, falando em Jethro Tull, Beatles, Stones, Tim Maia, produção, capas de disco e outros comentários bem articulados. Assim, estabelece uma conexão com Juli e o produtor/editor do livro e a conversa segue fluida e agradável.

Nós, quietos. Prefiro não dar nenhum palpite a menos que encontre algum pecadilho gramatical, mas não é hora disso.

A senhorinha sai novamente e volta com mais café e bolo.

Quatro da tarde. Juli abraça o violão e se põe a cantar duas ou três canções de letras incompreensíveis e o clima vai murchando.

Aproveito e vou comprar um exemplar, 120 reais. Surpreso pelo valor salgado mas não recuo. Ganho o autógrafo, fazemos umas fotos e é a deixa para erguer o charque.

Tchau, papai! Tchau, mamãe!

Dona Marly quer mesmo é passar no supermercado Dia e comprar fermento e farinha de trigo.

Aproveito e encho o carrinho de bolacha Maria, bolacha Maisena e três pacotes daqueles wafers genéricos do Dia para logo mais à noite assistir maratonas no YouTube e encher de farelo o sofá da sala.

Histórias – 2

O começo de tudo – 1º capítulo

Para recordar meu envolvimento com a prática de corrida de rua, seja em treinos diários, seja em participação em provas, devo contar que tudo começou com um alerta importante que será revelado no decorrer desses capítulos.

Acompanhe, se tiver paciência.

Vou contextualizar recordando meu perfil desde a infância.

Aos 7 anos despertei para o gosto dos esportes observando fotografias da juventude de meu pai e seus irmãos: poses para o fotógrafo Vicente Budzinski e aquela máquina que exigia dele cobrir a cabeça com um pano e disparar o flash explosivo que resultava na fumaceira.

O fato é que meu pai fora na juventude um esforçado extrema-esquerda  camisa 11– como se conhecia à época a posição de ponta-esquerda no futebol moderno.

Essa lembrança ligada a outras de eles, aos domingos, ouvirem pelo rádio os jogos e torcerem ardorosamente pelo Botafogo de Futebol e Regatas e Coritiba Football Club.

Paranaenses das décadas passadas tinham o costume de torcer por um escrete do Paraná e um do Rio de Janeiro. Raramente pelos paulistas.

Por essas e por outras, convivi esportivamente com aquela piazada de Samas, principalmente meus primos Paulinho (Paulo César Magnani, filho de Lourenço (Lulo) e Marilena) e Luiz Edemir Xaxixo  (filho de Ângelo (Lin) e Áurea do Correio) e meu irmão João (este nunca foi adepto de assuntos esportivos).

Nossas brincadeiras principais eram chutar bola e jogar peteca imitando vôlei. No Grupo Escolar e até o segundo ano do Ginásio meu interesse era cem por cento o futebol, acompanhando a Copa do Mundo e o surgimento de Pelé, disputando partidas no Campinho do Cemitério , na quadra e no campo do Grupo, sob a orientação do professor Paulo Stencel e dona Julinha (fogosa como ela só…)

O tempo foi passando e aos 13 anos fui internado no Seminário São José em Nova Órleans, região metropolitana de Curitiba.

Fiquei dois anos aí, indo mal nos estudos mas muito atuante no esporte que contemplava futebol, vôlei, basquete e até beisebol. Havia também um negócio chamado “ espiribol” , consistindo num mastro com uma bola pendurada numa corda que se disputava com 4 jogadores, dando valentes bordoadas para enrolar a corda fora do alcance da dupla adversária.

Não sei se vocês conhecem essa brincadeira e está difícil de verbalizar.

Enfim, aproveitei o que pude até ser despachado para casa com uma carta explicando minha absoluta falta de vocação para ser padre.

De volta a Samas, fiquei pouco tempo devarde e meu irmão 01 me ajeitou um espaço no outro seminário, denominado Seminário Rainha dos Apóstolos, em Curitiba, na avenida Bispo Dom José, onde ele cursava Filosofia na tentativa de se tornar padre também.

Fiquei morando num quartinho com a obrigação de servir de porteiro no prédio. Devia ficar o dia inteiro perto de um telefone daqueles pretos, de rodinha, atender as ligações e chamar os destinatários. À noite, deveria frequentar o Colégio Estadual Rio Branco, ali perto do Internato Paranaense, matriculado no 1º. ano do Científico.

Foi outro desastre de atuação. Em três tempos comecei a zanzar pelos corredores do seminário, de olho nas garotas que passavam perto, descuidando das obrigações. Para piorar, não estudava com fervor.

Durou pouco minha carreira de porteiro. Fui despachado e, mais uma vez, meu irmão me salvou de voltar a Samas, arranjando um canto para dormir nos fundos da Igreja dos Capuchinhos das Mercês e um serviço na ala de farmácia do Hospital Nossa Senhora das Graças, duas quadras adiante.

Até que ia indo bem, mas numa situação miserável. Ganhava quase nada e tinha que frequentar as aulas ainda no Rio Branco, indo e voltando a pé desde as Mercês até o Batel.

Nessa nova função não fiz nenhuma merda e era benquisto pelo pessoal do laboratório do hospital. Mas cansado dessas dificuldades, resolvi voltar para Samas. Larguei tudo e retornei no final de 1965.

Em casa, sob o olhar cada vez mais severo e vigilante de minha mãe, fui me adaptando novamente e me sentia muito feliz no meio daquelas garotas da Escola Normal e a rapaziada da Escola de Comércio.

Aí cabe uma confissão que nunca revelei a ninguém. É o seguinte: como tinha concluído o segundo ano do chamado Científico, malemar, quase raspando, mas com direito a começar a Escola Normal já no segundo ano, lá fui eu às aulas de manhã.

Só que…os colegas constituíam-se de  meia dúzia de mocinhas sem graça mais o Tiquinho (Francisco Luiz Ulbrich, irmão do Léo) e outros que nem lembro mais.

Já a turma da 1ª.série era um jardim de flores, só garotas, e uma delas que eu já estava de olho e senti certa correspondência. Não revelarei aqui o nome pois nunca ninguém ficou sabendo disso, já que um dos meus novos amigos era e é até hoje perdidamente apaixonado por ela, que é muito bem casada, tem filhos e netos mas conserva uma beleza, para mim, eterna.

Essa menina tinha 15 anos e esticava uns olhos compridos que interpretei como interesse.

Então, bolei o seguinte plano de ser reprovado para recomeçar o segundo ano com essa turma. Foi fácil tirar umas notas baixas com dona Ione Cunha Bastos, sem direito a segunda época. Não sei se alguém – professor ou familiar – percebeu minha jogada mas valeu a pena.

No ano seguinte dei um jeito de sentar-se na carteira atrás dela e ficava “trocando umas figurinhas”, com o músculo cardíaco a milhão, perdidamente apaixonado. Fui feliz em 1967 e 1968, quando  terminamos o curso mas o caso nunca foi adiante porque ela dava uns sinais contraditórios e, para não perder tempo, parti para novas aventuras já no turbilhão dos Supersônicos e aí a história já lhe é sobejamente conhecida.

Em 1969 comecei a Faculdade em União da Vitória e fui conhecendo outras colegas, outras vibes, outras histórias e superei esta paixonite aguda.

Em 1970 fui convidado para lecionar em Triunfo e lá morei por 3 anos.

E os esportes? Pois é, sempre jogando futebol. Onde estivesse sempre dava um jeito de jogar bola, acompanhar os campeonatos, viver intensamente o futebol praticando, acompanhando, torcendo.

Capítulo 2 – Corre o ano de 1973 e no dia 10 de julho segunda-feira tenho o meu primeiro dia (na verdade, noite) de trabalho na Petrobras UPI SIX em Samas. Foi de lascar: entrada à meia-noite, saída às 8h da manhã, esgotado, cansado, morto de sono.

Em casa, dormi o dia inteiro e emendei com a noite, acordando na quarta-feira cedo.

Foi o primeiro dia de trabalho, já seguido da folga habitual de dois dias (quarta e quinta, conhecida como folga média), retornando na sexta-feira às 8 da manhã durante sete dias ininterruptos. Era, e é até hoje, uma escala de trabalho de turno, que fiz durante 23 anos.

E os esportes?

Pois é, uma época sensacional: jogava futebol de campo e de salão quase todo dia com os companheiros de turno. Havia gente de tudo quanto é canto, jogadores bons oriundos de times quase profissionais, onde aprendi muita coisa, disputei dezenas de torneios, jogos olímpicos da empresa, disputas internas e externas.

Minha vida era trabalharem turno, ainda ia para Triunfo meio que sem dormir, jogava bola, tomava cerveja, fumava, putiava, namorava, sempre de carro para cima e para baixo, uma vida de dissipação em completo hedonismo.

Durou um bom tempo até que, vendo os colegas e amigos casando e rareando, fui me sentindo sozinhão e deslocado.

Segui o caminho tradicional: comprei um terreno (ganhava bem), construí minha casa, aproximei-me cautelosamente de dona M (comigo até hoje), casei em 1977, tive filhos e fui parando com o futebol, às voltas com a vida familiar.

Estamos agora no ano de 1983 e vem aquela tragédia da maior enchente ocorrida em Samas. Tudo parado e alagado, lembrando a desgraça da epidemia que passamos recentemente.

Estava desanimado com o emprego, tinha me indisposto com a chefia imediata, preterido nas promoções – a gente sempre acha que é perseguido – meu irmão LA conseguira se transferir para a REPAR, também descontente com o ambiente da SIX.

Aí do nada, num dia qualquer, em julho, em que fui na Banca do Romeu Nadolny comprar jornal, fui abordado por um colega de trabalho, mais amigo de LA que de mim, chamado Antônio Carlos Prieto me contando que tinham-se abertas vagas de transferência na Petrobras, visando suprir postos de trabalho oriundos das demissões em massa com a greve nacional de 83, em Porto Alegre-RS, em Salvador-BA e Paulínia, na região de Campinas.

Agradeci a informação, fui para casa e contei a novidade. A resposta de dona M foi instantânea: eu topo, vamos embora.

Compreendi no ato. Ela jamais gostou de Samas. Não é são-mateuense, odiava o lugar devido às lembranças das encrencas do pai dela, e só estava ali por ter casado comigo mas nunca escondeu a antipatia pela cidade.

Foi a gota d’água, já que estamos falando de São Mateus completamente alagado.

No mesmo dia, pedi agenda com o superintendente para tratar desse assunto. Ele nem titubeou. Ouviu minha história e ali mesmo autorizou. Voltei agitado para casa, M me abraçou feliz e vi que tínhamos tomado a decisão certa.

Comecei os preparos para a transferência, mudança, vender a casa, ir conhecer Campinas, resolver dezenas de pequenas pendências. Mas quando se é novo – com 34 anos – vai-se fazendo meio que de tudo no impulso e vamo-qui-vamo.

Em outubro, com uma criança de 2 anos e um nenê de 6 meses no colo, lá fomos nós viajando de avião pela primeira vez na vida.

Cumpri meu último horário da noite numa sexta-feira, dia 24, cheguei em casa às 8h30 e já estava um carro da firma esperando para nos levar ao aeroporto em Curitiba. À tarde, embarque na VASP e descida em Congonhas, com as crianças assustadas. Dali, de táxi até ao Terminal Rodoviário do Tietê. Dali, embarque num busão da Cometa chegando em Campinas às 5 da tarde, sob um calor de 35 graus. Mais um táxi para o hotel. Dona M e eu exaustos.

No dia seguinte, às 8h, de táxi para o apartamento que já estava alugado e, em lá chegando, já estava o caminhão de nossa mudança, até com o Opala amarelo 78 placa NY-2008, que tinha comprado em 1982 de Hamilton Biancolini.

Na segunda-feira já me apresentei na refinaria para os trâmites iniciais e já assumindo minha nova função. Para me adaptar, deixaram-me em horário administrativo, indo às 7h30 e voltando 17h30.

Dona M passava o dia sozinha, cuidando de duas crianças e tentando ajeitar os pertences na casa. Levamos um mês com o apartamento lotado de caixas de papelão fechadas com nossas bugigangas.

Agora uma curiosidade no preparo da mudança. A empresa generosamente forneceu todas as condições para a viagem, pagando a transportadora, as passagens, as despesas de viagem.

Sou eternamente grato a Petrobras pela honestidade, cuidado e cumprimento das normas. Tudo que tenho devo a ela. Devolvi cumprindo minhas obrigações com capricho e recebi tudo o que era de direito.

E a curiosidade? É o seguinte: o auxiliar administrativo que cuidava desses assuntos de transferência vinha a ser o marido daquela pessoa de 15 anos da Escola Normal et-cetera e tal.

Portanto, tinha que me reportar a ele. E quando fiz o rol do material para a transportadora, deu um migué na situação e fui levar o documento na casa dele, fora do expediente, porque sacumé o turno, o horário, isso e aquilo, e lá fui eu na cara de pau.

Convidado a entrar, não me fiz de rogado e tudo transformou-se numa visita. Ela me pareceu linda como sempre, grávida do segundo filho, uma visão delicada e enternecedora.

Lá vêm novamente os fantasmas dos anos sessenta a revolver um passado meio que distante. Foi intencional e logicamente percebida a jogada. Mas ficou por isso mesmo, considerei uma despedida solene.

Capítulo 2

Dito isso, mudei-me de mala e cuia para o estado de São Paulo no dia 26 de outubro de 1983 e lá se vão 40 anos, dos quais não me arrependo um dia sequer. Aqui organizei minha vida profissional, familiar, nasceu a filha 03, morei um ano de aluguel, comprei um apartamento com a venda da casa em Samas, vendi este apartamento e comprei outro, térreo, num pombal e ali ficamos até 1996, quando vendi um apartamento de Curitiba, vendi este de moradia, juntei com o FGTS e comprei um maior, onde vivo até hoje.

Meus três filhos estudaram sempre em escola particular, onde gastava boa parte do salário. Quando prestaram  vestibular, todos passaram na Unicamp e aí comecei a refazer meu orçamento.

E as corridas, mano? Nada ainda.

Nada. Desde o dia que aqui cheguei em 83 até 96 na aposentadoria não fiz nada além de trabalhar e cuidar da família, aí incluindo churras frequentes no clube da empresa, muita cerveja e tabaco, me afundando nessa merda a cada dia. O futebol ficou para trás devido principalmente à geografia. Explico: a rapaziada colegas de trabalho jogavam bola no Parque Taquaral – sempre ele… – numas quadras ótimas – mas tudo muito longe, tendo que fazer praticamente uma viagem de casa e sempre após o turno da noite. Não fui nenhuma vez, muito trabalho, perder horas preciosas de sono, deixar a mulher cuidando de tudo em casa.

De modo que foi ficando por isso mesmo, engordando, ganhando pança, perdendo a vontade de fazer algum esforço extra.

Mas, sempre tem um mas. E aí vem o start. No exame demissional em novembro de 96, o médico me alertou da péssima condição de saúde que eu estava preparando, com os marcadores bioquímicos fora da curva, hábitos perversos, aos 47 anos um verdadeiro caco. Mandou-me procurar um cardiologista e tratar da saúde.

Fi-lo, incluindo um cateterismo dois anos depois.

Com dona M e os filhos me atazanando, tentei parar de fumar. Quase consegui. Mas a bebida cortei a zero numa veizada só, no dia 17 de janeiro de 1997, quando bebi a última cerveja em Caiobá numa festa de aniversário de meu cunhado à época. Nesse dia enchi a cara mas sem fazer nenhuma merda aparente, apenas aquele estado etílico mazomenos que a gente acha que dá jeito.

Subi a serra tastaviando no Opalão e, em casa, prometi nunca mais tocar em álcool, promessa mantida até hoje sem nenhum vacilo.

Ao par disso comecei a andar de manhã ali no Bosque em frente de casa, meio de má vontade, sem fôlego. Lembro como se fosse hoje que a volta completa interna mede 1km divididos em três partes distintas: plano, descida e subida. Nesta última, ao completar 800m andando parei e acendi um cigarro. Pitei e fui.

A partir daí comecei a ir todos os dias, pois já aposentado, e fui tomando gosto até encontrar uns caras correndo. Fiquei observando. Logo um deles – Mauro Benedito, meu amigo até hoje, como todo paulista do interior puxou papo e daí para os trotinhos envergonhados foram dois palitos.

Agora vou parar um pouco que M está me chamando para o mate.

Capítulo 3

Em outubro de 1998 fiz meu debut nas corridas de rua, disputando uma prova de 8km dentro do circuito da Refinaria de Paulínia, com colegas da ativa e aposentados. Cheguei em penúltimo lugar mas feliz da vida.

Um mês depois arrisquei uma prova oficial Corrida Integração, de 10km, que terminei com 1h08min e de língua de fora. Daí para frente, foi uma atrás da outra e nunca mais parei. Tenho anotado todas as distâncias percorridas desde essa de 8km com um total de mais de 40 mil quilômetros. Até hoje foram 1 ultramaratona, 21 maratonas, 40 meias-maratonas e outras de tantas de quilometragem variada com 150 provas oficiais concluídas.

Mas a cereja do bolo ou a azeitona da empada ou a goiabada do sonho ou o creme do chineque foi a primeira maratona, disputada sob um frio de 12 graus, em Blumenau no dia 24 de junho de 2002.

Essa efeméride foi emblemática  porque uma prova dessa envergadura – 42.195 metros nem um centímetro a mais – exige uma preparação minuciosa sob risco de não concluir.

Para tanto, estava já sob a orientação de um treinador e nutricionista. Esta, sabiamente, transformou minha vida com a seguinte sentença: “Seu Ivo, vou lhe preparar mas tem um porém. Você precisa parar de fumar. Ou uma coisa ou outra.”

E foi aí que se deu a transformação. Parei e sofrei três anos até abandonar definitivamente o uso recreacional do tabaco. E a maratona? Foi um sucesso. Concluí a prova em 4h -00minutos -08 segundos em êxtase.

 A ida até Blumenau foi numa excursão de corredores saindo de busão de São Paulo à meia-noite de uma sexta-feira, chegada na manhã do sábado, a prova no domingo às 7h e retorno a SP no domingo no fim do dia.

Quando desci trambalhando do busão para entrar no metrô Santa Cruz em direção ao Terminal Rodoviário do Tietê senti que estava morto. Quase. O cansaço, indescritível. E nunca mais parei.

Histórias

Napoleão

É o nome de um amigo do dr. Luiz, médico aposentado também, aquele da história do seu Ademar.

Napoleão mas está mais para Napogatinho pois não obstante ser um homem alto, de nariz rubicundo, cara enferruscada, que, trajado com calções curtos, ao caminhar com passos miudinhos ainda oscila suavemente os quadris.

São amigos de caminhada diária aqui nas imediações. Vejo-os sempre em animadas conversas.

Dr. Luiz é um idoso educado e bem-humorado.

Nossas conversas são divertidas porque ele sempre louva minhas frases gramaticalmente corretas como ele também faz.

Napoleão se cala quando me aproximo, malmente responde ao cumprimento. Quando estão juntos não entabulo conversa para não parecer importuno.

Pois numa dessas andanças no parque, eu correndo percebo dr. Luiz acompanhado desta vez da cuidadora, morena balouçante, e reduzo a velocidade para cumprimentá-lo.

Saudações feitas, dr. Luiz diz para a cuidadora “veja este meu amigo, assim é que se caminha e corre, com tênis, o calçado certo para isso” e já emenda para ela “você deveria fazer assim também”.

Ela de salto alto, com a educação tão fina quanto os saltos, devolve “nem fodendo, doutor…”

Parece mentira, mas foi esta a resposta que ouvi.

E o Napoleão? Nada a ver com essa história mas aproveitei para apresentá-lo.

Sábado, 22

Dormi demais. Deitei às 19h e saltei às 7h30. Lombar em forma, sem dores. Mas…uma sensação esquisita na fronte, típica de pressão alterada.

Medi: 16 x 9 x 44

Muito alta, já tomei um Benicar 20mg.

Meia hora depois, 15 x 8,5 x 41 e pouco progresso.

9h10 – levar dona H para exame de ultrassom oftalmológico, longinho de casa, 15km, estacionamento caro, 22 reais.

10h50 – em casa, continuando minhas revisões.

Mate e almoço, agora só quero sossego.