Continuando

A cirurgia começou às 9h15 e foi concluída às 10h30, com cinco injeções de anestésico, duas  extrações, um enxerto, duas furações, duas buchas, dois pinos, uma costura, três RX, uma receita com três medicamentos, um aviso para voltar na próxima semana e retirar os pontos, um cheque de mil reais, um gasto de 350 reais na farmácia.

Comprei Amoxil para tomar três vezes ao dia durante sete dias, Biprofenid duas vezes ao dia durante quatro dias e Dipirona 35 gotas a cada oito horas.

Pelo aplicativo da Drogaria São Paulo tenho vários descontos. Sendo assim aproveitei para comprar os medicamentos de uso contínuo de dona W e os meus também, pois provavelmente devo continuar com os controladores de pressão e colesterol.

Para finalizar, adquiri uma lata de Ensure para me nutrir nesta fase de banguela e ainda uma caixa de sabonetes Alma de Flores pela data de aniversário de matrimônio.

É simples mas não deixei passar em branco, que eu não sou doido ainda.

Cheguei em casa às 11h. Vi o recado da menina no WhatsApp “pai, precisa que te busque?”

Agora é tarde, guria. Já estou em casa.

Tomei banho, vesti o pijama e me acomodei, com um saco de gelo na bochecha pois o efeito da anestesia já estava passando.

Agora são 12h50, já estou medicado e tranquilo pois a dor aguda está sumindo.

Mais tarde vou sair da cama e trabalhar nos seis textos novos para correção.

Desta vez não foi tão sofrida a intervenção. Um cirurgião jovem, de mãos leves, delicado e paciente.

Gracejei dizendo-lhe que eu tinha vindo preparado para sofrer mais.

Agradeci com sinceridade o cuidado e o capricho com que me tratou.

Terça-feira, 8

São 8h43 e estou em frente ao consultório do cirurgião dentista. O procedimento está marcado para 9h.

Já tomei quatro cápsulas de antibiótico conforme recomendação. Vim só, espero voltar bem. Dona S não pôde me acompanhar pois a irmã tem umas noites difíceis e acorda mais tarde.

Além disso, não a deixaremos mais sozinha. Tinha combinado com a filha de me trazer e levar mas esse povo esquece fácil e não sou do tipo de falar duas vezes.

De qualquer modo, me sinto melhor tratando por conta própria dos meus assuntos.

Segunda-feira, 7

Hoje não há treino para descansar para amanhã. Passei a manhã toda em casa às voltas com os textos a serem corrigidos. Terminei todos, sete no total, cerca de duzentas e tantas páginas.

O guri ligou cedo pedindo a carteira de vacinação para comprovar a situação dele para sair do país e entrar aqui.

Reviramos os arquivos durante meia hora para encontrar. Achei-a com data de 1983, tanto tempo atrás, mas o suficiente para provar o histórico.

Foi legal ver os recibos da Maternidade da Visconde de Guarapuava, todos guardados cuidadosamente.

Ao meio-dia me ligaram do Consultório cancelando a consulta de hoje. Vai ficar para dia 20.

Levei a irmã de dona R ao caixa eletrônico para validar uma senha. Apavorada com qualquer detalhe, mal conseguiu acessar a conta pela biometria. Percebi que não pressionava o sensor com força suficiente para a máquina ler sua digital. A que ponto chega uma pessoa deprimida, com medo de tudo e todos.

Na décima tentativa finalmente funcionou. Agora tem o aplicativo instalado no celular mas tem pavor de executar alguma operação. Sequer conferiu o saldo.

E por que o aplicativo? Porque insiste em que eu tenha acesso à sua conta se “lhe acontecer alguma coisa”…

Então é assim. Fiz-lhe a vontade para que se acalmasse e tivesse alguém em quem confiar.

Domingo, 6

Fiz um treino atrasado de terça para não ficar devendo: circuito de força, em 50 minutos, dentro de casa.

A hóspede acordou abatida, pressão baixa, assustada, dormiu mal. Fiz com que tomasse um Gatorade aos poucos, meio empurrado. Come muito pouco. A irmã não para de falar e aconselhar e querer ajudar e deixa-a mais tonta ainda.

Fiz com que se pesasse: 37kg, peso infantil. Vai dar trabalho para recuperar.

Hoje à tarde vamos na filha para o café tradicional. Talvez se anime. Pouco provável. A depressão não tem hora nem lugar, fica maltratando o freguês. E na ânsia de ajudar acho que a gente só enche-lhe a paciência.

Sábado, 5

Esse foi antes das sete da manhã. Um ótimo treino, moderado mas eficiente.

Em jejum mas com remédios em dia, a pressão após estava perfeita em 12×8.

O resto do dia em casa, com as duas reinando pra lá e pra cá.

Ainda saí para algumas compras às 11h30 antes do mate.

À tarde, descansei, escrevi, corrigi, li. Para em seguida, na estratégia de distrair a hóspede, fazer outro mate e jogar dominó e bingo até a hora da meditação.

Conversei com os manos, com a notícia que o primo médico já saiu do hospital, já saiu de SP e está voltando para casa. Fracote e vários quilos a menos mas vivo.

Sexta-feira, 4

Histórias de ontem ainda: na hora do jantar, às 19h30, fui percebendo que ela estava empalidecendo, típico de quem vai desmaiar. Medi-lhe a pressão, estava muita baixa em 8 x 5. Preparei um copo de água com açúcar e sal, atendi para que não apagasse. Melhorou levemente. Resolvi sair e comprar um isotônico. Quase tudo já fechando, ainda encontrei um boteco, comprei um Powerade, que foi a salvação.

Já salvei dona O em outras ocasiões com este artifício.

Fiquei de vigia até nove e meia da noite e voltei para o hotel. Hoje de manhã – sexta-feira – estava mais animada e confessou que tem muito medo de tudo e de todos, sente angústia generalizada e outros pequenos sofrimentos.

Acredito que ficando conosco, tendo paciência e dando acolhimento vai sentir-se melhor.

E já estou observando um progresso hoje durante a viagem para casa, que seria o pior momento. Mas deu tudo certo. Foi uma viagem tranquila, pouso suave e pontual e a menina foi nos buscar. Na chegada encontramos o mate e almoço prontos. A reunião foi agradável, tentando segurar dona F e seus conselhos sobre tudo e todos.

Não vai ser fácil cuidar de uma e segurar a outra.

As crianças ligaram. O menino, feliz, por ter ganhado uma vara de pescar. A mãe foi voto vencido mas o pai, de tradição esportiva, ganhou a disputa. A esperança da mãe é que o guri vai se desinteressar logo porque não é de ficar parado e pescaria é um esporte silencioso e paciente.

Quinta-feira, 3

Acordei às 5h com o temporal forte. Medi a pressão: 15 x 9, repeti e continuou alta.

Desci para o café, uma decepção. Em outros tempos era caprichado na arrumação, tudo com cara de fresquinho e novo.

Hoje só de passar perto já percebi a decadência: tudo “de ontem”, poucas frutas, nenhum suco.

É o retrato atual, tudo de baixa qualidade. Menos os preços. Estes sempre progredindo.

Esperei a chuva parar e voltei à visita anterior. A aparência dela estava deplorável. Fiz-lhe companhia e alguma conversa até às 9h.

Peguei um Uber até a casa do irmão 2, fiz-lhe uma visita rápida, louvei-lhe a aparência mais serena, deixei-lhe o pacote de biscoitos de centeio feitos e enviados por dona T.

Andei até a casa dos irmãos 3 e 4, meia hora de caminhada agradável.

Um mate caprichado, conversa longa, ganhei erva-mate crioula e sabonetes de erva-mate também da feira de Samas, entreguei-lhe biscoitos (bolachas?) de centeio igualmente.

Outro Uber e almoço simples em casa.

A corretora chegou pontual, espiei o apartamento, meio mal cuidado, mas só olhei alguns detalhes e fiquei ouvindo aquela conversa tradicional sobre as inúmeras vantagens deste negócio.

Agora vamos ver outros dois neste mesmo prédio.

São todos iguais obviamente, diferindo apenas no estado de conservação, com louças e alguns armários antiquados, excelentes para começar fogo numa churrasqueira.

Para fazer negócio não é defeito. Ao contrário, bom para pechinchar e usar a diferença na reforma com sobra.

Já fiz disso em outras ocasiões com bom resultado.

Mas ficamos só na fase do “faz favor, muito obrigado, dá licença, vamos ver” e que tais.

A conversa séria vem numa fase posterior. Por enquanto só na conversa.

Comuniquei os fatos à dona V e fui fazer um mate, contar mais histórias e esperar a hora da meditação.

Agora são 21h45 e já arrumei a guaiaca para amanhã. Vou me acomodar.

Boa noite a todos e todas.

Quarta-feira, segunda parte

Cá estou nos lugares de sempre, viajando e me hospedando igual ao de sempre.

A viagem aérea foi tranquila e pontual, descida macia, desembarque normal. Chamei o Uber Select, veio um carro melhor, motorista educado e tranquilo.

Check-in às 11h30, pagamento adiantado, banho rápido e troca de roupa, início da visita ao meio-dia.

Uma aparência lamentável da anfitriã: aspecto doentio, triste, magreza de chamar a atenção.

Fiz um mate e aceitei o almoço desanimado.

Parti para a estratégia de contar causos e agitar as conversas. Aos poucos pareceu-me que reviveu.

Saí agora de lá, tendo mantido a conversa o tempo todo e também pedi Madero pelo delivery, o que trouxe-lhe um pouco mais de energia e disposição.

Amanhã farei uma visita rápida aos brothers e em seguida marquei com a corretora para ver um apartamento à venda neste mesmo prédio. Vou espiar o estado em que se encontra e, se me agradar, iniciarei a pechincha até o sufoco total.

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Quarta-feira, 2

Completamos hoje 43 anos de matrimônio, sem festa, sem presentes, somente os cumprimentos pessoais.

Acordei às 5h pensando na viagem às 9h30. Ajeitei os assuntos diários e saí às 7h para o aeroporto. Tinha combinado da filha me levar mas ela se manifestou quando já tinha chamado o Uber.

Tudo bem, até preferi, pois daria mais trabalho que ajuda. Não é prático nem seguro sair de um endereço, vir me buscar e voltar no trânsito pesado cedo.

Solicitei a opção Select mas não havia. Veio o simples numa lata velha, carro empoeirado, motorista de bermuda e camiseta de futebol, não saiu para ajudar na bagagem.

No meio do caminho pediu para parar no sanitário do posto de gasolina. Não sinalizou setas, não respeitou a velocidade máxima da estrada. Uma esculhambação total. É o retrato da situação atual do Brasil, infelizmente.

Agora estou no aeroporto lotado, como se tudo estivesse bem. Espero ir e voltar sem me contaminar.