Sexta-feira, 17

Continua um clima esquisito aqui. Venta horrores à noite, amanhece brusco pronto para chover mas nada de água.

Esquenta, escurece, venta, seca o ar.

Zero saída para andar. Faltam dois dias de teste.

Fiz musculação indoor, compras de supermercado, preparei a procuração para o advogado de Samas tratar do inventário.

A menina levou a tia ao médico para apresentar o laudo da psicoterapeuta.

Voltaram com receita de medicamentos para controlar medo e esquecimento.

Além de várias recomendações – genéricas ou já sobejamente conhecidas, como refeições nas horas certas, sono de no máximo 8 horas, fazer exercícios físicos, ocupar-se com leitura, socialização – tudo que um idoso deve fazer para se manter ativo física e mentalmente.

Recomendou retornar à psicoterapia, tomar os remédios durante quatro meses sem interrupção, voltar ao consultório em 45 dias, consultar um nutrólogo.

Dez minutos após chegar, já tinha esquecido tudo.

Duvido que fará dez por cento do recomendado.

Dona R já está perdendo a paciência de tanto ouvir as repetições e tentar acelerá-la nos assuntos caseiros.

Não sei quanto tempo vai durar essa encrenca.

De minha parte, hoje marquei consulta para segunda-feira com um osteopata para tirar a dúvida sobre estas dores no quadril.

Semana que vem termino as vinte sessões de fisioterapia, retorno ao nefrologista, faço esta avaliação da lombar no osteopata.

Se nada progredir, tomo uns anti-inflamatórios e recomeço minhas atividades de costume.

Espero que Santo Expedito me ajude nesta parada.

Quinta-feira, 16

Ontem foi aniversário de 69 anos de um amigo dos tempos de antanho, o baterista do nosso conjunto.

Lembrava sempre dele mas não tinha contato há anos.

Converso diariamente com o saxofonista e este me colocou via WhatsApp.

Fiz os cumprimentos de praxe mas fiquei me perguntando se estes retornos fora de hora fazem bem para os dois lados.

Quarta-feira, 15

No dentista desde 9h30. Aproveitei para escrever o longo post de terça-feira.

Agora vamos ao de hoje, quarta, dia 15.

Permaneço na sala de espera apesar do convite para apreciar a cirurgia. Agradeço mas fico sem essa alegria.

Quanto ao assunto da renúncia: às vezes, ou quase sempre, vejo-me insistente numa questão já definida com clareza e em definitivo por uma das partes.

Torno-me importuno e tiro o sossego do outro lado.

Prometo me conter mais.

Terça-feira, 14

Um dia extremamente quente. Não saí para nada. A fisioterapeuta recomendou uma semana sem caminhadas para observar o comportamento do sacro-ilíaco, região que me atormenta há tempos.

Não está fácil. Sem correr já me deixava aborrecido e agora sem andar também.

Vou aguentar firme até sábado pois estou contando o tempo desde domingo último.

Amanhã será a sessão 19 e pretendo encerrar na outra segunda-feira com a sessão 20. Daí dou a desculpa de viagem para me livrar dela por uns dias para não me prender a mais uma série de dez, que dura cinco semanas e 990 reais.

Nem tanto pelo valor mas pela chateação. Quem frequenta esse tipo de tratamento sabe a que estou me referindo.

Mudando de saco para mala, ontem voltei aos exercícios de ginástica chinesa on-line com minha turma de velhotes.

Tinha abandonado esta prática em casa porque já andava enjoado de tanta live, meeting, zoom, webnários, todos esses formatos.

Mas voltei para me ocupar com mais um assunto. Ficando “devarde” enlouquecerei antes do tempo.

Continuamos aqui com a irmã de dona B, nesse vaivém sem progresso ou solução.

A história agora é a seguinte: a neuro-psicóloga entregou um laudo gigantesco com o resultado dos testes e recomendação de voltar à médica inicial neurologista.

Não tive paciência de ler até o fim. A conclusão é óbvia: pessoa de hábitos solitários, de luto sem fim, que perdeu a principal razão de viver, qual seja, cuidar da mãe.

Aposta furada, é claro. Cuidamos todos de nossos familiares mas o exagero e a aposta num só objetivo frustram o freguês ao perder o objeto de seu plano.

E agora? Agora fica relembrando, remoendo, justificando, revivendo um passado que não voltará.

E para marcar a consulta de volta? Desde sexta-feira passada se arrodeando, se esquivando do compromisso.

Finalmente marcou para daqui três dias e a menina é quem vai acompanhar para tirarmos dona Q do circuito.

Texto lido no domingo

L. Rosenberg – do livro ‘A cada respiração’ (Breath by breath)

Acertando o Alvo

Um lugar onde as ideias de ganho normalmente aparecem, onde as pessoas ficam obsessivas sobre a prática, está na tarefa de permanecer na respiração. Tomamos uma instrução simples e criamos um drama de sucesso e fracasso em torno dela: estamos tendo sucesso quando estamos acompanhando a respiração, falhando não quando não estamos. Na verdade, todo o processo é meditação: estar com a respiração, afastando-se, vendo que nós nos afastamos, gentilmente retornando. É extremamente importante voltar sem sentir culpa, sem julgamento, sem um sentimento de fracasso. Se você tiver que retornar mil vezes em um período de cinco minutos de meditação, apenas faça isso. Não há nenhum problema, a menos que você crie um.

Cada instância de enxergar que você se afastou é, afinal, um momento de atenção, e também uma semente, que aumenta a probabilidade de momentos como esse no futuro. O melhor de tudo é ir além de toda a mentalidade de sucesso e fracasso, entender que nossas vidas são uma série de mudanças entre vários estados. Se você já tivesse um tipo de atenção como um raio laser que nunca vacila, você nem precisaria praticar meditação. O objetivo destas contemplações não é fazer a sua respiração perfeita. É para ver como a sua respiração realmente é.

Numa manhã de verão há alguns anos, eu observei um mestre Zen de arco e flecha dar uma demonstração para um grupo de praticantes de meditação. Cerca de 150 pessoas estavam presentes em um grande campo aberto. Ele tinha estabelecido um alvo e foi em um completo traje de gala japonês, com suas vestes e protetores do pulso e todo tipo de parafernália. Houve uma cerimônia elaborada antes da liberação da flecha – e todos nós esperávamos que fosse atingir o alvo na mosca, houve todos os tipos de cânticos e gestos rituais. O momento chegou, e nós podíamos sentir a tensão. O mestre puxou a corda com a flecha. Nós estávamos prendendo a respiração. Pareceu que ele mantinha a seta ali para sempre. Então de repente ele mudou e atirou para o ar. Houve um gemido imenso da multidão. O arqueiro caiu na gargalhada.

Ele estava nos mostrando que a obsessão com o alvo não era o ponto. Nós, no Ocidente, temos uma mente muito forte do tipo “a fim de”. Nós queremos ir de A para B, de B para C. Idealmente, nós gostaríamos de ir direto de A até Z, adquirir nosso Ph.D. no primeiro dia, pulando todos os passos pelo meio. Iluminação em uma lição fácil. Nossa mente gasta todo o seu tempo calculando. Tudo é um meio para um fim.

Mas isso erra o ponto. Cada momento da respiração é ambos, um meio e um fim. Nós não estamos olhando para a respiração a fim de obter a iluminação. Nós estamos apenas olhando para a respiração, enraizados nela, sentando com ela como um leão. Iluminação, afinal, é apenas mais um osso. É uma ideia que nós temos.

A instrução é para desaparecer na respiração e deixar todos os ossos para trás, todas as preocupações, inquietações, planos, medos, todas as coisas que compõem a mente. E quando ficamos presos nelas novamente, a instrução é retornar suavemente para a respiração. Especialmente no mundo moderno, onde todo mundo está tão impressionado com variedade e complexidade, tão desesperado para se divertir, é um alívio instalar-se neste simples ato repetitivo. A oportunidade que temos de permanecer com a respiração, sempre retornando para ela, é uma chance de fazer uma coisa simples e comum de maneira bem feita, e de tratá-la com grande cuidado e respeito.

Entrar neste espírito de repetição pode ser também uma maravilhosa lição de simplicidade, que também é extremamente necessária no mundo moderno. Muitas pessoas vêm para a meditação esperando alguma prática complexa que leve a uma experiência extraordinária. Eles não podem acreditar que devem apenas se sentar ali e observar a respiração. Mas quando aprendemos a nos render a um objeto simples, nós começamos a ver como esta habilidade é útil em outros aspectos de nossas vidas. Quantas vezes nós escovamos nossos dentes, vamos ao banheiro, vestimos nossas roupas, arrumamos a cama? Nossos dias são dominados por atividades comuns e repetitivas desse tipo, que geralmente tratamos colocando no piloto automático. Isso significa que nós perdemos muito da nossa vida. Esta prática nos ensina a permanecer renovados no meio de toda a atividade de rotina, realmente, a viver nossas vidas.

Domingo, 12

Fazendo contas aqui: dia 5 é aniversário do irmão 2, a completar 74 anos.

Pretendo visitá-lo neste dia. Para isso, o plano é ir de avião um dia antes e voltar logo em seguida pois dia 7 é aniversário da filha mais nova aqui.

Assim, deixo dona T e irmã aqui aos cuidados desta filha.

Porque ambas não podem ficar sozinhas sem supervisão. A dona da casa se move com dificuldade, não sai sozinha, não dirige. A mais velha estará sob tratamento contínuo, depois da entrevista desta semana anterior.

Entrevista que a neuro-psicóloga nos convocou para detalhar o diagnóstico das dez sessões. Minha filha ofereceu-se para acompanhar a mãe nessa parada.

E ficaram orientadas a não deixar a paciente sozinha porque está com perda cognitiva e de memória.

Insistiu que se volte ao neurologista para medicação e acompanhamento psicológico, no caso esta mesma.

Resumo da história: dona U fará o tratamento dentário em breve, a irmã fica por aqui aos nossos cuidados.

Só voltará à casa dela em C depois de todos esses passos resolvidos, expectativa para fim de outubro, no mínimo.

A todas essas, vou e volto, encerro meu tratamento fisioterápico, faço os exames complementares, continuo o tratamento urinário e, se Deus quiser, volto aos treinos fortes para reduzir o peso e voltar a ser feliz.