Histórias – 4

Na rua

Saí para caminhar hoje de manhã, não tão de manhã assim porque acordei depois das 8h apesar de ter ido me acomodar às nove e meia ontem. Dormi muito, dormi demais, estava cansado não sei do quê.

Incluí na caminhada uma parada no Santarelli e comprar uma pilha grande para o aquecedor a gás, esses dias reinando para acender. Apesar de ter substituído a anterior no dia 14 de abril,  esta pilha já estava pifando. Hoje desmontei os terminais, limpei os filtros e nada. Continuou com acendimento irregular.

Por isso resolvi trocá-la. Na loja, de cara o vendedor perguntou: é para aquecedor? Sim, é.

Então o senhor compre a alcalina porque a simples não dura muito.

Sério? Quanto custa a simples? e esta alcalina?

A comum é 3,50 e a alcalina 27,50.

Grande a diferença. Resolvi apostar na dica do cidadão. Fui pagar com meu novo cartão de crédito e débito PicPay, por aproximação. E funcionou direitinho, sem senha, sem nada.

O senhor quer o cpf na nota? Sim, faz favor. Pode dizer. E eu: zero meia oito e….travei, esqueci total. Tentei recitar, nada. Pensei, parei, tentei, nada ainda.  Liguei o celular, procurei nos documentos, não achei. Desisti.

Após três ou quatro quadras andando, surgiu o número completo na mente. Ri sozinho, estou ficando esquecido.

Continuei o passeio e parei no Sebo Pelegrini, lá nas alturas do Externato São João, onde já tinha caçado pela Estante Virtual o livro que procurava.

Nada. Já tinha sido vendido. Perdi a viagem.

Não lembro o porquê mas o véinho da loja puxou conversa e lá fomos contando histórias sem que eu comprasse nada e nem ele  tentasse me vender.

O assunto virou em “qual é sua idade”, “onde trabalhou” e por aí vai.

Quando percebi, a prosa deslanchou, apareceu mais um velhote, entrou no papo, surgiu outro e mais um. Não demorou muito, já parecia uma longa amizade, cada um contando histórias e vantagens.

A principal foi a do primeiro vendedor, que enveredou a contar e mostrar suas habilidades para consertar relógios antigos. Aí foi minha vez de dar palpite quando ele mencionou que não existia mais a benzina – benza-me Deus, que coisa antiga – para limpar os mecanismos delicados dos cebolões.

Era minha deixa para contar como se produzia gasolina, querosene e solventes, produtos da refinaria da qual fiz parte durante dezesseis anos aqui.

Foi quase uma hora nesta conversa, fiada mas agradável. Gosto de falar com pessoas na rua, principalmente as mais velhas, sempre propensas um papo.

Na verdade, quanto mais velho se fica mais solitário se é ou se sente. E dar atenção a essas figuras é uma forma de caridade, ou compaixão no vocabulário budista.

De volta para casa, após 4km e duas paradas, tomei um mate caprichado aguardando a chegada de Belzinha para almoçarmos juntos, quando aproveitei e contei essa e outras pequenas aventuras.

Histórias – 3

Tarde de autógrafos

Foi ontem, sábado, dia 30 de julho de 2022, às 14h, na Livraria Pontes, da rua Doutor Quirino, no centro velho de Campinas.

A Livraria Pontes pertence aos irmãos Eva e José Reinaldo, nossos amigos. Certamente é a última loja de livros desta cidade a permanecer em funcionamento; todas as outras já fecharam as portas, vítimas de tantas crises por que passam os negócios no Brasil.

O acervo é seleto, dedicado às artes e ciências principalmente; nada de autoajuda, best-sellers e bobagens afins.

José Reinaldo é um entusiasta de James Joyce e não perde nenhuma efeméride de Saint Patrick e a Irlanda. Um hábito que mantém é o de frequentar pubs em São Paulo nas datas comemorativas do mais famoso escritor irlandês de Ulisses e Contos Dublinenses.

Eva nos apresentou os segredos do Qi Gong e Lian Gong, com o mestre chinês Tzai e o Sensei Iba nos idos de 1998.

Ao par dessas atividades, retribuímos a ela a prática de meditação Zen.

E assim passaram-se todos esses anos de amizade e convivência, com períodos de interrupção mas sem perder o contato e a amizade.

Contei toda essa história para introduzir o assunto de hoje: a visita de outro amigo de longa data, Juli Manzi, músico, escritor, jornalista, compositor, produtor de conteúdo digital.

Na citada Livraria Pontes ele fez o lançamento de seu livro “Odisseia, Júpiter Apple History”, biografia do roqueiro porto-alegrense Flávio Basso.

Essa é uma longa história. Juli Manzi, também porto-alegrense, apareceu em nosso círculo de interesses através da Unicamp, onde veio fazer sua pós-graduação na área de música no Instituto de Artes, em 2000.

Descobriu nosso grupo de meditação e logo aderiu às reuniões. Encerrado seu ciclo de estudos aqui, seguiu para outras plagas e aventuras.

Voltamos a nos encontrar em 2016. Aqui esteve para lançar a primeira edição deste mesmo livro no Centro de Convivência Cultural, disputando a freguesia da Feira de Artesanato.

Agora, seis anos após, lá vem ele novamente com a reedição da obra, em formato luxuoso, capa dura, papel especial.

Até aqui tudo certo.

A questão é: cadê o público para prestigiar, conhecer, comprar o livro?

Praticamente ninguém apareceu, apesar da divulgação nas redes sociais e no jornal Correio Popular, diário campineiro.

Quando cheguei com Marly não havia ninguém além do autor e do staff.

Às duas e meia, surgiram dois casais jovens, roupa preta, silenciosos.

O autor começou a cerimônia, fazendo a leitura e apresentação.

Chega outro casal, velhotes, com o filho com cara de velho também.

A senhorinha dá uma espiada geral e já se levanta em busca de um café e bolo. O marido refuga, o filho também, mais interessados na apresentação.

O senhorzinho começa uns apartes, mostrando que conhece o assunto, falando em Jethro Tull, Beatles, Stones, Tim Maia, produção, capas de disco e outros comentários bem articulados. Assim, estabelece uma conexão com Juli e o produtor/editor do livro e a conversa segue fluida e agradável.

Nós, quietos. Prefiro não dar nenhum palpite a menos que encontre algum pecadilho gramatical, mas não é hora disso.

A senhorinha sai novamente e volta com mais café e bolo.

Quatro da tarde. Juli abraça o violão e se põe a cantar duas ou três canções de letras incompreensíveis e o clima vai murchando.

Aproveito e vou comprar um exemplar, 120 reais. Surpreso pelo valor salgado mas não recuo. Ganho o autógrafo, fazemos umas fotos e é a deixa para erguer o charque.

Tchau, papai! Tchau, mamãe!

Dona Marly quer mesmo é passar no supermercado Dia e comprar fermento e farinha de trigo.

Aproveito e encho o carrinho de bolacha Maria, bolacha Maisena e três pacotes daqueles wafers genéricos do Dia para logo mais à noite assistir maratonas no YouTube e encher de farelo o sofá da sala.

Histórias – 2

O começo de tudo – 1º capítulo

Para recordar meu envolvimento com a prática de corrida de rua, seja em treinos diários, seja em participação em provas, devo contar que tudo começou com um alerta importante que será revelado no decorrer desses capítulos.

Acompanhe, se tiver paciência.

Vou contextualizar recordando meu perfil desde a infância.

Aos 7 anos despertei para o gosto dos esportes observando fotografias da juventude de meu pai e seus irmãos: poses para o fotógrafo Vicente Budzinski e aquela máquina que exigia dele cobrir a cabeça com um pano e disparar o flash explosivo que resultava na fumaceira.

O fato é que meu pai fora na juventude um esforçado extrema-esquerda  camisa 11– como se conhecia à época a posição de ponta-esquerda no futebol moderno.

Essa lembrança ligada a outras de eles, aos domingos, ouvirem pelo rádio os jogos e torcerem ardorosamente pelo Botafogo de Futebol e Regatas e Coritiba Football Club.

Paranaenses das décadas passadas tinham o costume de torcer por um escrete do Paraná e um do Rio de Janeiro. Raramente pelos paulistas.

Por essas e por outras, convivi esportivamente com aquela piazada de Samas, principalmente meus primos Paulinho (Paulo César Magnani, filho de Lourenço (Lulo) e Marilena) e Luiz Edemir Xaxixo  (filho de Ângelo (Lin) e Áurea do Correio) e meu irmão João (este nunca foi adepto de assuntos esportivos).

Nossas brincadeiras principais eram chutar bola e jogar peteca imitando vôlei. No Grupo Escolar e até o segundo ano do Ginásio meu interesse era cem por cento o futebol, acompanhando a Copa do Mundo e o surgimento de Pelé, disputando partidas no Campinho do Cemitério , na quadra e no campo do Grupo, sob a orientação do professor Paulo Stencel e dona Julinha (fogosa como ela só…)

O tempo foi passando e aos 13 anos fui internado no Seminário São José em Nova Órleans, região metropolitana de Curitiba.

Fiquei dois anos aí, indo mal nos estudos mas muito atuante no esporte que contemplava futebol, vôlei, basquete e até beisebol. Havia também um negócio chamado “ espiribol” , consistindo num mastro com uma bola pendurada numa corda que se disputava com 4 jogadores, dando valentes bordoadas para enrolar a corda fora do alcance da dupla adversária.

Não sei se vocês conhecem essa brincadeira e está difícil de verbalizar.

Enfim, aproveitei o que pude até ser despachado para casa com uma carta explicando minha absoluta falta de vocação para ser padre.

De volta a Samas, fiquei pouco tempo devarde e meu irmão 01 me ajeitou um espaço no outro seminário, denominado Seminário Rainha dos Apóstolos, em Curitiba, na avenida Bispo Dom José, onde ele cursava Filosofia na tentativa de se tornar padre também.

Fiquei morando num quartinho com a obrigação de servir de porteiro no prédio. Devia ficar o dia inteiro perto de um telefone daqueles pretos, de rodinha, atender as ligações e chamar os destinatários. À noite, deveria frequentar o Colégio Estadual Rio Branco, ali perto do Internato Paranaense, matriculado no 1º. ano do Científico.

Foi outro desastre de atuação. Em três tempos comecei a zanzar pelos corredores do seminário, de olho nas garotas que passavam perto, descuidando das obrigações. Para piorar, não estudava com fervor.

Durou pouco minha carreira de porteiro. Fui despachado e, mais uma vez, meu irmão me salvou de voltar a Samas, arranjando um canto para dormir nos fundos da Igreja dos Capuchinhos das Mercês e um serviço na ala de farmácia do Hospital Nossa Senhora das Graças, duas quadras adiante.

Até que ia indo bem, mas numa situação miserável. Ganhava quase nada e tinha que frequentar as aulas ainda no Rio Branco, indo e voltando a pé desde as Mercês até o Batel.

Nessa nova função não fiz nenhuma merda e era benquisto pelo pessoal do laboratório do hospital. Mas cansado dessas dificuldades, resolvi voltar para Samas. Larguei tudo e retornei no final de 1965.

Em casa, sob o olhar cada vez mais severo e vigilante de minha mãe, fui me adaptando novamente e me sentia muito feliz no meio daquelas garotas da Escola Normal e a rapaziada da Escola de Comércio.

Aí cabe uma confissão que nunca revelei a ninguém. É o seguinte: como tinha concluído o segundo ano do chamado Científico, malemar, quase raspando, mas com direito a começar a Escola Normal já no segundo ano, lá fui eu às aulas de manhã.

Só que…os colegas constituíam-se de  meia dúzia de mocinhas sem graça mais o Tiquinho (Francisco Luiz Ulbrich, irmão do Léo) e outros que nem lembro mais.

Já a turma da 1ª.série era um jardim de flores, só garotas, e uma delas que eu já estava de olho e senti certa correspondência. Não revelarei aqui o nome pois nunca ninguém ficou sabendo disso, já que um dos meus novos amigos era e é até hoje perdidamente apaixonado por ela, que é muito bem casada, tem filhos e netos mas conserva uma beleza, para mim, eterna.

Essa menina tinha 15 anos e esticava uns olhos compridos que interpretei como interesse.

Então, bolei o seguinte plano de ser reprovado para recomeçar o segundo ano com essa turma. Foi fácil tirar umas notas baixas com dona Ione Cunha Bastos, sem direito a segunda época. Não sei se alguém – professor ou familiar – percebeu minha jogada mas valeu a pena.

No ano seguinte dei um jeito de sentar-se na carteira atrás dela e ficava “trocando umas figurinhas”, com o músculo cardíaco a milhão, perdidamente apaixonado. Fui feliz em 1967 e 1968, quando  terminamos o curso mas o caso nunca foi adiante porque ela dava uns sinais contraditórios e, para não perder tempo, parti para novas aventuras já no turbilhão dos Supersônicos e aí a história já lhe é sobejamente conhecida.

Em 1969 comecei a Faculdade em União da Vitória e fui conhecendo outras colegas, outras vibes, outras histórias e superei esta paixonite aguda.

Em 1970 fui convidado para lecionar em Triunfo e lá morei por 3 anos.

E os esportes? Pois é, sempre jogando futebol. Onde estivesse sempre dava um jeito de jogar bola, acompanhar os campeonatos, viver intensamente o futebol praticando, acompanhando, torcendo.

Capítulo 2 – Corre o ano de 1973 e no dia 10 de julho segunda-feira tenho o meu primeiro dia (na verdade, noite) de trabalho na Petrobras UPI SIX em Samas. Foi de lascar: entrada à meia-noite, saída às 8h da manhã, esgotado, cansado, morto de sono.

Em casa, dormi o dia inteiro e emendei com a noite, acordando na quarta-feira cedo.

Foi o primeiro dia de trabalho, já seguido da folga habitual de dois dias (quarta e quinta, conhecida como folga média), retornando na sexta-feira às 8 da manhã durante sete dias ininterruptos. Era, e é até hoje, uma escala de trabalho de turno, que fiz durante 23 anos.

E os esportes?

Pois é, uma época sensacional: jogava futebol de campo e de salão quase todo dia com os companheiros de turno. Havia gente de tudo quanto é canto, jogadores bons oriundos de times quase profissionais, onde aprendi muita coisa, disputei dezenas de torneios, jogos olímpicos da empresa, disputas internas e externas.

Minha vida era trabalharem turno, ainda ia para Triunfo meio que sem dormir, jogava bola, tomava cerveja, fumava, putiava, namorava, sempre de carro para cima e para baixo, uma vida de dissipação em completo hedonismo.

Durou um bom tempo até que, vendo os colegas e amigos casando e rareando, fui me sentindo sozinhão e deslocado.

Segui o caminho tradicional: comprei um terreno (ganhava bem), construí minha casa, aproximei-me cautelosamente de dona M (comigo até hoje), casei em 1977, tive filhos e fui parando com o futebol, às voltas com a vida familiar.

Estamos agora no ano de 1983 e vem aquela tragédia da maior enchente ocorrida em Samas. Tudo parado e alagado, lembrando a desgraça da epidemia que passamos recentemente.

Estava desanimado com o emprego, tinha me indisposto com a chefia imediata, preterido nas promoções – a gente sempre acha que é perseguido – meu irmão LA conseguira se transferir para a REPAR, também descontente com o ambiente da SIX.

Aí do nada, num dia qualquer, em julho, em que fui na Banca do Romeu Nadolny comprar jornal, fui abordado por um colega de trabalho, mais amigo de LA que de mim, chamado Antônio Carlos Prieto me contando que tinham-se abertas vagas de transferência na Petrobras, visando suprir postos de trabalho oriundos das demissões em massa com a greve nacional de 83, em Porto Alegre-RS, em Salvador-BA e Paulínia, na região de Campinas.

Agradeci a informação, fui para casa e contei a novidade. A resposta de dona M foi instantânea: eu topo, vamos embora.

Compreendi no ato. Ela jamais gostou de Samas. Não é são-mateuense, odiava o lugar devido às lembranças das encrencas do pai dela, e só estava ali por ter casado comigo mas nunca escondeu a antipatia pela cidade.

Foi a gota d’água, já que estamos falando de São Mateus completamente alagado.

No mesmo dia, pedi agenda com o superintendente para tratar desse assunto. Ele nem titubeou. Ouviu minha história e ali mesmo autorizou. Voltei agitado para casa, M me abraçou feliz e vi que tínhamos tomado a decisão certa.

Comecei os preparos para a transferência, mudança, vender a casa, ir conhecer Campinas, resolver dezenas de pequenas pendências. Mas quando se é novo – com 34 anos – vai-se fazendo meio que de tudo no impulso e vamo-qui-vamo.

Em outubro, com uma criança de 2 anos e um nenê de 6 meses no colo, lá fomos nós viajando de avião pela primeira vez na vida.

Cumpri meu último horário da noite numa sexta-feira, dia 24, cheguei em casa às 8h30 e já estava um carro da firma esperando para nos levar ao aeroporto em Curitiba. À tarde, embarque na VASP e descida em Congonhas, com as crianças assustadas. Dali, de táxi até ao Terminal Rodoviário do Tietê. Dali, embarque num busão da Cometa chegando em Campinas às 5 da tarde, sob um calor de 35 graus. Mais um táxi para o hotel. Dona M e eu exaustos.

No dia seguinte, às 8h, de táxi para o apartamento que já estava alugado e, em lá chegando, já estava o caminhão de nossa mudança, até com o Opala amarelo 78 placa NY-2008, que tinha comprado em 1982 de Hamilton Biancolini.

Na segunda-feira já me apresentei na refinaria para os trâmites iniciais e já assumindo minha nova função. Para me adaptar, deixaram-me em horário administrativo, indo às 7h30 e voltando 17h30.

Dona M passava o dia sozinha, cuidando de duas crianças e tentando ajeitar os pertences na casa. Levamos um mês com o apartamento lotado de caixas de papelão fechadas com nossas bugigangas.

Agora uma curiosidade no preparo da mudança. A empresa generosamente forneceu todas as condições para a viagem, pagando a transportadora, as passagens, as despesas de viagem.

Sou eternamente grato a Petrobras pela honestidade, cuidado e cumprimento das normas. Tudo que tenho devo a ela. Devolvi cumprindo minhas obrigações com capricho e recebi tudo o que era de direito.

E a curiosidade? É o seguinte: o auxiliar administrativo que cuidava desses assuntos de transferência vinha a ser o marido daquela pessoa de 15 anos da Escola Normal et-cetera e tal.

Portanto, tinha que me reportar a ele. E quando fiz o rol do material para a transportadora, deu um migué na situação e fui levar o documento na casa dele, fora do expediente, porque sacumé o turno, o horário, isso e aquilo, e lá fui eu na cara de pau.

Convidado a entrar, não me fiz de rogado e tudo transformou-se numa visita. Ela me pareceu linda como sempre, grávida do segundo filho, uma visão delicada e enternecedora.

Lá vêm novamente os fantasmas dos anos sessenta a revolver um passado meio que distante. Foi intencional e logicamente percebida a jogada. Mas ficou por isso mesmo, considerei uma despedida solene.

Capítulo 2

Dito isso, mudei-me de mala e cuia para o estado de São Paulo no dia 26 de outubro de 1983 e lá se vão 40 anos, dos quais não me arrependo um dia sequer. Aqui organizei minha vida profissional, familiar, nasceu a filha 03, morei um ano de aluguel, comprei um apartamento com a venda da casa em Samas, vendi este apartamento e comprei outro, térreo, num pombal e ali ficamos até 1996, quando vendi um apartamento de Curitiba, vendi este de moradia, juntei com o FGTS e comprei um maior, onde vivo até hoje.

Meus três filhos estudaram sempre em escola particular, onde gastava boa parte do salário. Quando prestaram  vestibular, todos passaram na Unicamp e aí comecei a refazer meu orçamento.

E as corridas, mano? Nada ainda.

Nada. Desde o dia que aqui cheguei em 83 até 96 na aposentadoria não fiz nada além de trabalhar e cuidar da família, aí incluindo churras frequentes no clube da empresa, muita cerveja e tabaco, me afundando nessa merda a cada dia. O futebol ficou para trás devido principalmente à geografia. Explico: a rapaziada colegas de trabalho jogavam bola no Parque Taquaral – sempre ele… – numas quadras ótimas – mas tudo muito longe, tendo que fazer praticamente uma viagem de casa e sempre após o turno da noite. Não fui nenhuma vez, muito trabalho, perder horas preciosas de sono, deixar a mulher cuidando de tudo em casa.

De modo que foi ficando por isso mesmo, engordando, ganhando pança, perdendo a vontade de fazer algum esforço extra.

Mas, sempre tem um mas. E aí vem o start. No exame demissional em novembro de 96, o médico me alertou da péssima condição de saúde que eu estava preparando, com os marcadores bioquímicos fora da curva, hábitos perversos, aos 47 anos um verdadeiro caco. Mandou-me procurar um cardiologista e tratar da saúde.

Fi-lo, incluindo um cateterismo dois anos depois.

Com dona M e os filhos me atazanando, tentei parar de fumar. Quase consegui. Mas a bebida cortei a zero numa veizada só, no dia 17 de janeiro de 1997, quando bebi a última cerveja em Caiobá numa festa de aniversário de meu cunhado à época. Nesse dia enchi a cara mas sem fazer nenhuma merda aparente, apenas aquele estado etílico mazomenos que a gente acha que dá jeito.

Subi a serra tastaviando no Opalão e, em casa, prometi nunca mais tocar em álcool, promessa mantida até hoje sem nenhum vacilo.

Ao par disso comecei a andar de manhã ali no Bosque em frente de casa, meio de má vontade, sem fôlego. Lembro como se fosse hoje que a volta completa interna mede 1km divididos em três partes distintas: plano, descida e subida. Nesta última, ao completar 800m andando parei e acendi um cigarro. Pitei e fui.

A partir daí comecei a ir todos os dias, pois já aposentado, e fui tomando gosto até encontrar uns caras correndo. Fiquei observando. Logo um deles – Mauro Benedito, meu amigo até hoje, como todo paulista do interior puxou papo e daí para os trotinhos envergonhados foram dois palitos.

Agora vou parar um pouco que M está me chamando para o mate.

Capítulo 3

Em outubro de 1998 fiz meu debut nas corridas de rua, disputando uma prova de 8km dentro do circuito da Refinaria de Paulínia, com colegas da ativa e aposentados. Cheguei em penúltimo lugar mas feliz da vida.

Um mês depois arrisquei uma prova oficial Corrida Integração, de 10km, que terminei com 1h08min e de língua de fora. Daí para frente, foi uma atrás da outra e nunca mais parei. Tenho anotado todas as distâncias percorridas desde essa de 8km com um total de mais de 40 mil quilômetros. Até hoje foram 1 ultramaratona, 21 maratonas, 40 meias-maratonas e outras de tantas de quilometragem variada com 150 provas oficiais concluídas.

Mas a cereja do bolo ou a azeitona da empada ou a goiabada do sonho ou o creme do chineque foi a primeira maratona, disputada sob um frio de 12 graus, em Blumenau no dia 24 de junho de 2002.

Essa efeméride foi emblemática  porque uma prova dessa envergadura – 42.195 metros nem um centímetro a mais – exige uma preparação minuciosa sob risco de não concluir.

Para tanto, estava já sob a orientação de um treinador e nutricionista. Esta, sabiamente, transformou minha vida com a seguinte sentença: “Seu Ivo, vou lhe preparar mas tem um porém. Você precisa parar de fumar. Ou uma coisa ou outra.”

E foi aí que se deu a transformação. Parei e sofrei três anos até abandonar definitivamente o uso recreacional do tabaco. E a maratona? Foi um sucesso. Concluí a prova em 4h -00minutos -08 segundos em êxtase.

 A ida até Blumenau foi numa excursão de corredores saindo de busão de São Paulo à meia-noite de uma sexta-feira, chegada na manhã do sábado, a prova no domingo às 7h e retorno a SP no domingo no fim do dia.

Quando desci trambalhando do busão para entrar no metrô Santa Cruz em direção ao Terminal Rodoviário do Tietê senti que estava morto. Quase. O cansaço, indescritível. E nunca mais parei.

Histórias

Napoleão

É o nome de um amigo do dr. Luiz, médico aposentado também, aquele da história do seu Ademar.

Napoleão mas está mais para Napogatinho pois não obstante ser um homem alto, de nariz rubicundo, cara enferruscada, que, trajado com calções curtos, ao caminhar com passos miudinhos ainda oscila suavemente os quadris.

São amigos de caminhada diária aqui nas imediações. Vejo-os sempre em animadas conversas.

Dr. Luiz é um idoso educado e bem-humorado.

Nossas conversas são divertidas porque ele sempre louva minhas frases gramaticalmente corretas como ele também faz.

Napoleão se cala quando me aproximo, malmente responde ao cumprimento. Quando estão juntos não entabulo conversa para não parecer importuno.

Pois numa dessas andanças no parque, eu correndo percebo dr. Luiz acompanhado desta vez da cuidadora, morena balouçante, e reduzo a velocidade para cumprimentá-lo.

Saudações feitas, dr. Luiz diz para a cuidadora “veja este meu amigo, assim é que se caminha e corre, com tênis, o calçado certo para isso” e já emenda para ela “você deveria fazer assim também”.

Ela de salto alto, com a educação tão fina quanto os saltos, devolve “nem fodendo, doutor…”

Parece mentira, mas foi esta a resposta que ouvi.

E o Napoleão? Nada a ver com essa história mas aproveitei para apresentá-lo.

Sábado, 22

Dormi demais. Deitei às 19h e saltei às 7h30. Lombar em forma, sem dores. Mas…uma sensação esquisita na fronte, típica de pressão alterada.

Medi: 16 x 9 x 44

Muito alta, já tomei um Benicar 20mg.

Meia hora depois, 15 x 8,5 x 41 e pouco progresso.

9h10 – levar dona H para exame de ultrassom oftalmológico, longinho de casa, 15km, estacionamento caro, 22 reais.

10h50 – em casa, continuando minhas revisões.

Mate e almoço, agora só quero sossego.

Quinta-feira, 20

Treino de hoje: correr 5km e treinar abdominais mais educativos de arremesso de peso, em total de duas horas de atividade.

Tempo frio, fiquei em casa o restante do dia.

A filha 01 conta que recebeu os passaportes dela e das crianças, com vistas a nos visitar no dia do ano.

Quarta-feira, 19

Acordei às 5h15, animado e disposto.

Mas tive a infeliz ideia de me espichar, me espreguiçar e aí senti a canivetada no lombo…

Resultado: passei a manhã toda com dores fortes no quadrado lombar, que já tinha melhorado muito.

Mais um Dorflex, alongamentos, compressa quente, pomadas e nada de aliviar.

Ajeitei-me como.pude e trabalhei na correção de textos até meio-dia.

Às 13h levei dona Y ao shopping para espiar umas cadeiras novas. Fomos meio mancando e capengando.

Não se agradou de nenhuma e partiu para as Pernanucanas, comprando toalhas, travesseiros, fronhas, capas e outras guarnições.

Saí carregando aqueles pacotes gigantes para levar ao porta-malas do carro.

Uma volta no Carrefour ali mesmo e novas compras caseiras.

De volta às 16h, com todo cuidado fiz a musculação caseira e aos poucos as dores lombares foram sumindo.

Agora retorno às correções e me acomodo à espera da meditação e sossego.

Terça-feira, 18

Voltei a treinar desafiando as dores do quadrado lombar esquerdo. Fui à pista às 8h e comecei andando 1km, passei para 500m trotando e iniciei o principal:

6 vezes de 1 minuto correndo forte alternando com 4 minutos leves.

Foi 1 hora de exercício cardio e passando para educativos de arremesso de peso.

Foram dezenas de arremessos, treinando no total das 8 às 11h.