Sexta-feira, 10

Cedinho, dia de pagar várias contas: condomínio, treinadores, cartão de crédito, consultoria financeira, telefone, IPTU

Treino de hoje: feito agora à tarde, após a tradicional chuva diária. O dia amanhece quente, esquenta ainda e mais e aí vem o toró.

Hoje a planilha previa apenas uma caminhada de 4km que fiz tranquilamente. Como é um exercício fácil, emendei mais dois km levando o cachorro.

Este voltou de língua de fora mesmo. Cansou logo.

O casal vai passar a noite fora, em descanso. Ficamos nós com os dois peraltas. Tomara que se comportem.

Vi, com tristeza, a morte por acidente de trânsito do escritor Alfredo Sirkis, para mim a grande referência de juventude.

É do meu tempo, dos anos 68, da política estudantil. Li seu livro Os Carbonários e sempre acompanhei sua carreira política, não brilhante mas sempre honesta.

Foi um dos fundadores do PV, Partido Verde, atualmente sem muita expressão.

Mas foi uma pessoa comprometida com o meio ambiente e a luta contra a ditadura.

Foi-se aos 69 anos.

Mais histórias

Número 1, de Ernesto, de nome Dinorah, sobrenome Cruz. Se alguém lembrar, era irmã de Valdomiro da Cruz (pai da Mirna Loy, Ezequiel, Sueli do Gêto), e daquele vendedor de loterias de casa em casa, sempre de paletó e que não me lembro o nome, apenas o apelido de Juca.

Esta senhora deu-lhe dois filhos além de um par de cornos pois dedicava-se a outras atividades com o respeitável senhor Tobias Pinto da Rocha, por sinal sogro daquele tio que fazia o chimarrão da história anterior.

Nesse entremeio, faleceu e o tio mudou de categoria de enganado para viúvo.

Mas não perdeu tempo. Logo casou-se com dona Natália Maciel, uma santa senhora, sem “boca para nada”, silenciosa, costureira, extremamente zelosa com a casa e os filhos do marido. Estes, respeitosamente, a tratavam como Dona Natália e tiveram uma convivência harmoniosa até o fim dos seus dias . O que ajudava também era o patrimônio dela em terrenos vários que os enteados dilapidaram lentamente para cobrir dívidas e empréstimos sem tempo integral. Um dos quais até hoje fiquei a ver navios. Mas essa é outra história.

Já o tio, conhecido pela pouca afeição ao trabalho, sempre às voltas com algum ai-ai-ai a justificar-lhe a imobilidade. Mas uma coisa é certa: tratava a todos com simpatia, sem nunca haver uma altercação com a esposa, os filhos ou outro parente. Morreu de velhice, sem dar um pio.

Contava eu parágrafos atrás que esta tia era incapaz de erguer a voz ou reclamar, principalmente com o tratamento recebido das Cajazeiras, que se compraziam em criticar seu jeito de viver. Nunca devolveu um desaforo. Até que um dia…

Adoeceu, precisou de internamento, tomou uns remédios pesados e surtou.

Numa visita das três, ergueu-se do leito e intempestivamente, do nada, pôs-se a gritar e xingar com os palavrões mais pesados que a gente conhece, de filhas da p… para cima.

Foi um caso sério, saíram correndo espantadas e nunca mais se falaram. Mesmo porque a tia durou pouco e descansou das humilhações de uma vida inteira.

Aí entra a questão de minha mãe que sempre foi solidária com ela. Deve ser para fazer frente à oposição pesada que também recebeu durante toda uma vida.

Se gostou desta matéria, continuarei a desfilar as histórias seguintes.

Até amanhã.

Boa tarde!

Essa é a minha cara de contentamento porque hoje recuperei quase 💯% de meus investimentos.

Do montante que tinha em 25 de fevereiro desapareceram 120 mil reais dos quais retornaram lentamente 117 mil.

Tudo isso para contar que, amanhã, despacharei 75.329,65 para o fundo de pensão, junto com milhares de outros colegas que tivemos suspensos os pagamentos mensais por conta e obra de liminares na Justiça Estadual.

Como cantava Paulinho da Viola numa antiga novela ” dinheiro na mão é vendaval na vida de um sonhador…”, no tempo que Francisco Cuoco era novo.

Mas é assim mesmo, nada é para sempre. Não lamento porque não me fará falta. Tenho o suficiente para viver sossegado.

Contei só para registro dos acontecimentos diários.

A cunhada

História resolvida. Entregou o resultado dos exames de laboratório para a médica geriátrica e teve confirmado o diagnóstico de saúde perfeita conforme esses marcadores bioquímicos. Portanto, as dificuldades de surto psicótico pelos quais passou devem ter sido causados pela medicação nova.

Como ela já é classificada como idosa mas pesa apenas 39kg, a dosagem deveria ter sido para peso de criança. Foi excessiva. Apenas dois comprimidos foram suficientes para desencadear esta crise. Segundo a bula, a probabilidade de isso ocorrer é de 0,01% mas aconteceu.

Assim, já despachou as companhias que a irmã determinou – e que eu certamente seria convocado a pagar, e, através dos longos telefonemas diários disparados daqui, assegura que está bem e que não precisamos nos preocupar.

Tudo bem, mais um capítulo encerrado, um xarope a menos. Estou aguardando para adivinhar qual será a próxima crise. Porque essas duas não vivem sem um mistério doloroso para preencher o dia a dia.

Quarta-feira, 8 de julho

Treino de hoje : 6 tiros de 300m x 100m mais 3km de trote leve. Feito às 8h, já com 30oC. Treino simples, sem grande esforço. Total de 5,6km. Ontem foi musculação à tarde e mais uma caminhada com o cachorro, atividade rotineira diária.

Mais histórias.

Tios. Tive muitos. De um lado, o paterno, foram seis, incluindo aí as “irmãs cajazeiras”, uma mais braba que a outra. Solteironas, passaram a vida a cuidar dos pais. Os masculinos, três – Ernesto, Lourenço e Ângelo – afetuosos, divertidos, pacientes com os filhos e sobrinhos. Sempre os tive na maior consideração por serem amorosos conosco. Uma excelente lembrança.

Já elas eram de trato difícil. Minha mãe não as suportava. O contrário também era verdade.

A primeira, costureira conhecida pela qualidade do trabalho mas que levava uma eternidade para terminar uma encomenda; dona-de-casa, responsável pela cozinha igualmente caprichada. Morreu de velhice com 90 anos, apagando suavemente.

A segunda, um pouco mais dócil, trabalhou a vida toda nos Correios, onde dividia o serviço e tratava com grosseria nada velada a cunhada, que morava com a família na própria agência. Padeceu horrores com um câncer de mama, que a levou depois de anos de sofrimento.

A terceira sempre foi ou se achava a “dona” da prefeitura, onde cuidou da tesouraria com mão de ferro. Todos os prefeitos a temiam porque desde aqueles tempos tentavam manipular ou cometer as hoje chamadas “pedaladas fiscais” mexendo no orçamento. Nenhum conseguiu enquanto ela esteve à frente do cofre. Foi professora na Escola de Comércio, igualmente severa. Pelas costas, zombavam dela em tempo integral. Não granjeou simpatia de ninguém até hoje. No conceito dela ninguém prestava, menos o lendário Edson Schramm. Um amor platônico, eu acho.

Tal desempenho de honestidade com o bem público era frequentemente desmerecido pela forma áspera com que tratava as pessoas, de perto ou de longe. E isso dura até hoje, do alto de seus 90 e tantos anos, estourando com um ou outro sobrinho dali de perto, que a ajudam em tudo.

Isso sem falar que vive às turras com os vizinhos, principalmente com a sogra do prefeito e o cunhado e irmã de Marlene, minha estimada amiga e colega de tantos anos. O motivo gira sempre em torno dos seus gatos, que insistem em passear no quintal alheio.

No próximo capítulo, escrevo sobre as três cunhadas, esposas de seus irmãos. Prepare-se…

Mais uma história

Tio João – o tio de meu pai.

Esse foi uma figura. Irmão da mãe de meu pai, chamado também João, morava em Curitiba, na Água Verde, com a mulher Sebastiana e três filhos, que eram seu maior orgulho.

Não tenho muita certeza e preciso consultar meu irmão número 2, de má saúde mas excelente memória, para confirmar se Sebastiana não seria irmã de dona Ione Cunha e Nídia Cunha. Por aí já dá para perceber a voltagem elétrica do casal.

Tio João era um homem pacífico, tranquilão, trabalhador, forte, alto, um italiano de imensos olhos azuis.

Contei que amava os filhos: Mônica, atendente numa ótica na Rua XV; Léla, o segundo – não sei o nome, apenas este apelido – acredito que se chamasse Lourenço – representante comercial de laboratório farmacêutico, e Polaco (também nunca soube o nome), cuja maior glória era ter sido zagueiro profissional do Água Verde F.C

Pois bem, tio João gostava mesmo era de um trago aos domingos, quando descansava do trabalho de gerente da Laminadora Tessariolli em Samas. O proprietário morou muito tempo ao lado de nossa casa, onde mais tarde, viveu a família Odilon Portes.

O casal – dona Iole e seu Merlin … tinha dois filhos, a menina Lia, com um jeito levemente amalucado e seu irmão Eros, de modos femininos. Eram amigos nossos, daqueles de vir brincar em casa. Na nossa, é claro, porque minha possessiva e severa mãe nunca deixava que nós frequentássemos casa alguma da vizinhança. Mas isso é outra história.

Voltando ao tio João, aos domingos era sagrada sua visita em nossa casa ali pelo meio-dia, já ficando para o almoço depois de tomar umas pingas no armazém do Júlio Polak (pai de meu amigo Eloy, casado com dona Maria, irmã do Osvaldo, genro da dona Saloméia e portanto cunhado de Ludenca).

Meu pai tinha uma paciência enorme, não só com ele mas com qualquer visita, e ouvia suas histórias compridas, balançando levemente a cabeça em aprovação mas sem dizer uma palavra sequer.

O interessante desta história é que minha mãe, tida e havida como intratável por nove entre dez conhecidos, demonstrava um cuidado especial e com muita paciência com tio João, apesar do trabalho adicional no almoço e no tempo de espera para ele se acomodar, conversar, tomar a tradicional “sopa branca”, elemento completamente fora de qualquer cardápio de domingo.

Mas tinha sopa branca sim no domingo lá em casa à espera da visita. Chamo de sopa branca porque a gente só conhecia dois tipos : a branca e a preta.

Explico : branca era aquela água quente com aletria e uns fiapinhos de carne de galinha; já a preta, ou menestra ou minestra ou minestrone, para servir à noite, feita de feijão preto amassado, coado e engrossada com macarrão, acrescido de uma colher de vinho tinto ou vinagre.

Aí o tio começava ou a gente achava que ele ia começar a tomar a sopa mas erguia a colher cheia e continuava a conversa; e nós, só com o olhar, apostando quanto tempo ele ia levar para a colherada ou, pior, se ia tombar a colher de lado num gesto mais descuidado.

Que me lembre, ele nunca derrubou mas levava uma eternidade para terminar o prato. Aí vinha a refeição mesmo, que demorava outro tanto, mais o sagu ou qualquer outra sobremesa modesta e o café para arrematar.

A conversa de um só se estendia até perto das quatro da tarde e meu pai de olho no relógio, ansioso para escutar o futebol no rádio.

Mas tio João nunca passou do ponto. Despedia-se e, levemente trôpego, voltava a pé até a fábrica, lá onde hoje é a Vila Bom Jesus. E na outra semana a história se repetia.