Mais uma história

Tio João – o tio de meu pai.

Esse foi uma figura. Irmão da mãe de meu pai, chamado também João, morava em Curitiba, na Água Verde, com a mulher Sebastiana e três filhos, que eram seu maior orgulho.

Não tenho muita certeza e preciso consultar meu irmão número 2, de má saúde mas excelente memória, para confirmar se Sebastiana não seria irmã de dona Ione Cunha e Nídia Cunha. Por aí já dá para perceber a voltagem elétrica do casal.

Tio João era um homem pacífico, tranquilão, trabalhador, forte, alto, um italiano de imensos olhos azuis.

Contei que amava os filhos: Mônica, atendente numa ótica na Rua XV; Léla, o segundo – não sei o nome, apenas este apelido – acredito que se chamasse Lourenço – representante comercial de laboratório farmacêutico, e Polaco (também nunca soube o nome), cuja maior glória era ter sido zagueiro profissional do Água Verde F.C

Pois bem, tio João gostava mesmo era de um trago aos domingos, quando descansava do trabalho de gerente da Laminadora Tessariolli em Samas. O proprietário morou muito tempo ao lado de nossa casa, onde mais tarde, viveu a família Odilon Portes.

O casal – dona Iole e seu Merlin … tinha dois filhos, a menina Lia, com um jeito levemente amalucado e seu irmão Eros, de modos femininos. Eram amigos nossos, daqueles de vir brincar em casa. Na nossa, é claro, porque minha possessiva e severa mãe nunca deixava que nós frequentássemos casa alguma da vizinhança. Mas isso é outra história.

Voltando ao tio João, aos domingos era sagrada sua visita em nossa casa ali pelo meio-dia, já ficando para o almoço depois de tomar umas pingas no armazém do Júlio Polak (pai de meu amigo Eloy, casado com dona Maria, irmã do Osvaldo, genro da dona Saloméia e portanto cunhado de Ludenca).

Meu pai tinha uma paciência enorme, não só com ele mas com qualquer visita, e ouvia suas histórias compridas, balançando levemente a cabeça em aprovação mas sem dizer uma palavra sequer.

O interessante desta história é que minha mãe, tida e havida como intratável por nove entre dez conhecidos, demonstrava um cuidado especial e com muita paciência com tio João, apesar do trabalho adicional no almoço e no tempo de espera para ele se acomodar, conversar, tomar a tradicional “sopa branca”, elemento completamente fora de qualquer cardápio de domingo.

Mas tinha sopa branca sim no domingo lá em casa à espera da visita. Chamo de sopa branca porque a gente só conhecia dois tipos : a branca e a preta.

Explico : branca era aquela água quente com aletria e uns fiapinhos de carne de galinha; já a preta, ou menestra ou minestra ou minestrone, para servir à noite, feita de feijão preto amassado, coado e engrossada com macarrão, acrescido de uma colher de vinho tinto ou vinagre.

Aí o tio começava ou a gente achava que ele ia começar a tomar a sopa mas erguia a colher cheia e continuava a conversa; e nós, só com o olhar, apostando quanto tempo ele ia levar para a colherada ou, pior, se ia tombar a colher de lado num gesto mais descuidado.

Que me lembre, ele nunca derrubou mas levava uma eternidade para terminar o prato. Aí vinha a refeição mesmo, que demorava outro tanto, mais o sagu ou qualquer outra sobremesa modesta e o café para arrematar.

A conversa de um só se estendia até perto das quatro da tarde e meu pai de olho no relógio, ansioso para escutar o futebol no rádio.

Mas tio João nunca passou do ponto. Despedia-se e, levemente trôpego, voltava a pé até a fábrica, lá onde hoje é a Vila Bom Jesus. E na outra semana a história se repetia.

Histórias

Mate – tomo todo dia. Mas atualmente já alterei a rotina de prepará-lo sempre à mesma hora, quase uma obrigação. Assim, mudo os horários e começo a preparar quando realmente me bate aquela vontade forte. Nem sempre coincide com o gosto de dona R, companhia constante.

Além disso, ela costuma reclamar da temperatura que nunca está boa, seja muito quente ou ainda fria. Acho que é apenas mais uma mania. Quando decide que está muito alta, costuma remover a tampa da garrafa térmica, como se fizesse alguma diferença.

Mas se acha que a água está fria – e aí sempre concordo porque gosto de água pelando – volto a esquentar a chaleira.

Aqui não usam chaleira, apenas umas caneconas de aço inox. E o fogão também não é a gás mas elétrico, só uma superfície preta e que fica vermelha ao ligar. Só tinha visto isso em programas culinários de TV.

Dá uma impressão engraçada ver aquela rodela vermelha sem sair fogo.

Lembro de um tio, proprietário de uma serraria na rua GK, que sempre esquentava a chaleira num fogareiro a álcool. Sempre considerei o melhor chimarrão que já tomei na vida, talvez pelo cheiro do álcool queimado impregnar-se ao ambiente e à sua conversa divertida. Apesar de que ele comprava uma erva pavorosa chamada Elizabeth. É um mistério sair um mate bom com aquela erva de péssima qualidade.

Boa mesmo era a Erva-Mate 111, de Rio Negro.

Daí vem a lembrança horrorosa do cheiro do Posto de Saúde e das donas Zo… e Helinha , aplicadoras de vacina na criançada do Grupo, desinfetando os aparelhos de injeção e o braço das vítimas.

Coincidência ou não, há histórias delas duas pularem a cerca seguidamente. A primeira não sei com quem.

Já a segunda todo mundo sabia que o autor era Olegário, gerente do Banco do Brasil.

Hoje estou no modo maledicência mas a verdade é essa e ninguém pode mudá-la.

Segunda, 6

Segunda-feira, 6 de julho

Pontualmente, às 8h, chega a baby-sitter. E sempre com uma novidade. A de hoje é a seguinte: soube desde sexta-feira através de uma amiga que conversou com outra amiga que conhece a mãe da amiga da outra mãe do menino acidentado etc. e tal que ele está fora do coma, não vai ficar tanto tempo internado  e que o segundo resultado de Covid-19 deu negativo.

Assim sendo, nunca teria contaminado a menina daqui.

E por que não contou a ela logo que soube?

Pois é, não liguei na hora, depois estive não sei aonde, e depois e depois e tal e só hoje de manhã é que contei.

De modo que toda essa aflição poderia ter sido evitada ou, pelo menos, já poderia ter voltado para casa há três dias.

Mas as coisas não acontecem assim sem mais nem menos. Parece que tudo tem um propósito.

E ela descansou uma semana e teve tempo para refletir na pressa, na ansiedade.

Então, tudo volta ao normal.

E lá em C também vão sossegando e entrando nos eixos.

Para dona V sobra a experiência de que não adianta se afligir demais com os assuntos alheios. Cada um sabe de si, cada um sabe onde lhe aperta o calo.

Para não perder o costume, aí vai o registro do treino de hoje: 5km de rodagem moderada, na rua, no calor, no sol. Tudo de bom.

Domingo, de novo

Meus leitores já devem estar cheios dessa história de treinos de hoje, sempre as mesmas descrições do mesmo assunto.

De modo que vou comentar outro tipo de casos, tais como esses de Samas, sem ofensa…

Samas 01

No site da Prefeitura há um folder, até bem caprichado, dando conta do calendário de Coleta de Recicláveis no interior do município. Há uma escala com datas e nomes das comunidades abrangidas.

Gosto de ler e lembrar dos nomes desses lugares. Há alguns bem curiosos. É o caso de Mico Magro.

Só que o redator grafou Micro Magro. Pode ter sido distração ou ação do corretor automático. Micro Magro para mim é um laptop fininho.

Aproveitei o ícone de “Fale conosco” e escrevi para o canal de ouvidoria alertando, sem zombaria, na maior seriedade possível, do engano que encontrei.

Isso aconteceu há alguns dias e, até agora, nenhuma resposta.

Samas 02

Uma notícia curiosa no Portal RDX sobre o sujeito que comprou uma gaiola e dois passarinhos mas não chegou com eles em casa porque foi abordado por um cidadão furioso, que lhe tomou a gaiola, soltou as aves e ainda deu-lhe um pontapé no lombo, sabe-se lá o motivo.

Dessa história se conclui que houve duas atitudes: um ato bom de libertar os pássaros e outro, mau, de agressão gratuita. Ao final, um anula o outro. E o agressor foi parar na delegacia pra deixar de ser tongo.

Domingo, 5

Dia de descanso. Mesmo se quisesse não deveria sair. Motivo: qualidade ruim do ar, causada pela fumaceira de ontem nos fireworks, queima de fogos de artifício no país todo, aliado à nuvem de areia que, vinda do Saara, atravessou o oceano Atlântico e poluiu o sul da Flórida.

De modo que é uma desgraça atrás da outra.

Já no Brasil ocorreu aquele tal de ciclone-bomba, causando queda de energia e destruição física por onde passou.

Hoje é dia 5. Tenho mais 20 dias aqui, se não houver nenhum atraso ou alteração no vôo.

Resta-me saber o que farei quando voltar para casa.

Minhas atividades físicas, consultas atrasadas, barbeiro (dona F não me dá sossego nesse assunto), retorno ao dentista para refixar duas próteses provisórias que estão ficando definitivas apesar de frouxas.

Vai ser complicado visitar meus irmãos. Como ir até lá e respeitar 15 dias de quarentena a cada vez? Ou a cada passo, como dizem os paranaenses…

O protocolo da Covid-19 estabelece que, a cada deslocamento, se respeite um intervalo devido à viagem que causou o passeio.

Vai ser complicado mesmo. Vou esperar chegar o dia de cada assunto para resolver um por um.

Bom domingo, pessoas.

Sábado, 4

Dia sagrado aqui : feriado nacional comemorativo do Dia da Independência.

Treino de hoje : 8 km debaixo de um solão daqueles. Já completado às 9h30, seguido de alongamento na piscina.

Parece que vai ser um dia tranquilo aqui. As crianças dormiram a noite toda e amanheceram mansas.

Sexta-feira, 3

Bateu o desespero em dona X para voltar imediatamente ao Brasil. Bufou o quanto pôde ontem e hoje de manhã.

Quer porque quer se mandar a pretexto de liberar a casa aqui para o retorno da filha, que sequer tem o tal resultado do exame.

Está previsto para divulgação apenas na segunda-feira. Aí temos uma querendo voltar e a outra querendo sair.

Nem a primeira deve fazê-lo em respeito ao cronograma nem a outra consegue ir embora.

Porque não há voos previstos. Esperei o berreiro passar e fui consultar o site da companhia aérea.

Surpresa… não há nenhum voo previsto para julho, com exceção daquele que remarquei para dia 25 e já aparece mudado para dia 24.

Resumo da novela : ficou tudo como antes, sem mudança nenhuma.

Nessa crise, nada é certeza.

Treino de hoje : 6km mais rápidos, em 36min hoje às 8h30, já com 30 graus.

Agora às 15h o termômetro marca 36…