Uma história lamentável
Esse é o título de um livro de Fiódor Dostoievski. A história que ele conta é lamentável. A minha, aqui, também.
No final de fevereiro de 2020, fomos para a tradicional visita aos netos, ocasião em que eclodiu a pandemia a partir do dia 15 de março, obrigando-nos a ficar por lá mais do que o esperado, seja por falta de passagens, seja pelo conselho dos filhos em não voltar, preocupados que estavam com nossa saúde e segurança.
Muita gente, é claro, trancou-se em casa, inclusive a cunhada C.
Lá pelos meados de maio, ela telefonou aflita contando entre lágrimas que sua mãe estava morta, na poltrona da sala.
M ficou intrigada e me chamou para contar. Morreu? Como, se já tinha falecido quatro anos atrás? Consegui acalmá-la e convencê-la a “não fazer nada e aguardar porque isso, porque aquilo” e fui contando histórias e enrolando até que esqueceu do assunto e se acalmou. Foi um surto sabe-se lá o motivo. Provavelmente a angústia, a solidão, o clima difícil da pandemia. Mas passou. Ficamos atentos, mas sem poder fazer nada.
Voltamos, finalmente, no final de julho, para uma quarentena em casa alugada, longe da filha e dos gatos, durante um mês.
Passaram-se os meses, a gente ligava dia sim dia não e tudo parecia se acalmar. Até que…
Esta história não é de hoje, mas agravou-se a partir de meados de 2020, em plena pandemia. Estou me referindo a C, que fui “resgatar” no dia 2 de dezembro de 2020, trazendo-a para nossa casa. Encontrei-a desidratada, triste, magra, deprimida, assustada, com medo de sair de casa.
Aqui tratamos dela, marcamos e levamos a consultas, exames. Comprei os medicamentos. Minha filha e eu acompanhamos nos exames de imagem, fui em busca das autorizações do plano de saúde, busquei os resultados, cuidei de suas contas, dona M encarregou-se de nutrir e atender em casa em tempo integral. O diagnóstico era sombrio: fraqueza, inanição, baixa imunidade, várias deficiências, incluindo senilidade, mostrada pela Ressonância Magnética.
Durante quatro anos cuidamos de tudo, alternando idas e vindas para a casa dela, de carro, enfrentando às minhas custas viagens de 500km cada, fazendo-lhe compras comuns para sua casa.
Ficava alguns períodos e logo eu retornava para buscar e aqui se hospedar.
Na sua cidade de origem, levamos a médicos, a exames, a laboratórios, sempre de carro comigo. E lá ia eu às farmácias, buscar resultados de exames e tudo que envolve esses tratamentos: lidar com autorizações, agendamentos, internações e qualquer outro procedimento.
Num período mais longo aqui, a conselho da neurologista, ia uma vez por semana no neuropsicólogo. Ia como? Eu a levava, de carro, esperava pacientemente durante uma hora e trazia-a para casa. Sim, despesas essas e congêneres ela pagava, mas eu me encarregava de pagar todas as contas e posteriormente, com acesso a sua conta. Nada de excepcional, apenas mais um trabalho extra e melindroso.
Dona M cozinhava, eu fazia as compras.
Numa consulta ao oftalmologista, este recomendou a cirurgia de cataratas. Recusou.
No dentista, recomendação de implantes e restaurações. Recusou.
Aceitou apenas as aplicações de vacinas para deter a degeneração óssea devido à artrose já avançada.
Aquelas consultas à ginecologista e outros assuntos femininos, nem pensar.
Na última ida em maio, instalei duas câmeras, na sala e cozinha, para monitorar em tempo real, pela recomendação de vários médicos em não a deixar sozinha.
Ela respondia de má vontade “eu não tenho nada, vocês é que querem que eu seja doente”.
E, ao fim desse período, no dia 9 de maio de 2023, quando a deixamos de manhã e voltamos para casa, tivemos a desagradável surpresa de flagrá-la pelas câmeras a se queixar – para uma única parente que a visita e que lhe envenena contra nós – do nosso comportamento, do nosso jeito de tratar, de nossas imposições e mania de mandar nela.
Durante uma hora ou mais ficamos ouvindo as reclamações pesadas e grosseiras das duas.
Isso porque comprei mais um apartamento aqui, reformamos, mobiliamos, pagamos condomínio, energia elétrica, gás, internet, telefone fixo, móveis, louças, cortinas, luminárias, pintura, consertos e tudo o que uma residência precisa para ser confortável e oferecer a ela um lugar onde ficasse perto de nós, sem custo nenhum e com privacidade, a cinco quadras de distância de nossa residência.
Nada disso serviu. Ouvimos reclamações e críticas das duas. Não vou transcrever aqui os trechos dos pavorosos diálogos que ouvimos.
Foi uma imensa decepção para mim e dona M, que jamais esqueceremos.
Inicialmente essa decisão de comprar o apartamento, pensando no seu conforto, tinha-lhe proposto ser sócia com 10% e registrar os documentos no nome das duas irmãs.
Depois de tudo decidido, escritura feita, um dia antes de fazer o pagamento final pediu para desistir alegando que poderia precisar deste dinheiro mais tarde.
A conta era de 350 mil reais e ela entraria com 35 mil dos 200 e tantos que tem guardado no banco…
Enfim, assumi sozinho o negócio e mesmo assim mantivemos a oferta de uso infinito.
Nem uma coisa nem outra. Preferiu ir embora e falar mal de nós.
Agora, quero entrar no capítulo decisivo desta história que é a seguinte:
Como tudo culminou no sábado anterior do Dia das Mães de 2023, dia 13, ocasião em que a deixamos em C. e voltamos para casa, aqui chegando à tarde e, ao acessar as câmeras para ver se tudo estava bem, foi que vimos e escutamos as duas conversando e nos desaforando.
No dia seguinte, domingo 14, em comemoração ao Dia das Mães, a filha e o genro nos convidaram para almoçar juntamente com os familiares dele.
E foi a data em que fizeram a maravilhosa revelação que nossa filha caçula também seria mãe pois estava grávida.
Imaginem vocês duas notícias fortes e contrárias: uma decepção e uma alegria ao mesmo tempo. Tive uma queda de pressão assustando os presentes, tamanha foi a emoção, principalmente da linda notícia que veio superar a anterior.
Onde quero chegar com essa conversa toda?
Aqui.
Com o passar dos dias após essas ocorrências, comecei a observar um tremor na mão direita. Vi também que minha letra, da qual sempre me orgulhei pelo capricho e qualidade, parecia vacilante, diminuindo e tremida aos finais das palavras.
A parte interna dos lábios tremia levemente, uma dorzinha nas têmporas, sonolência e desânimo foram se instalando aos poucos. Talvez já tivesse isso há algum tempo, mas não prestara atenção.
Quando chegou o mês de outubro, com a visita da filha 01, aniversários, ida de M para os EUA com a filha, tantos e tantos assuntos causando estresse, resolvi consultar um neurologista logo que M voltou.
No começo de novembro, a consulta durou poucos minutos, com exame clínico e a revelação que nunca esperei: igual a meu pai e um irmão, sou portador de Mal de Parkinson, desencadeado por aqueles dois chamados gatilhos que menciono aí em cima.
Não é fácil receber uma sentença dessas. Saímos jururus do consultório já com a receita do medicamento inicial e, em casa, resolvemos não contar aos filhos enquanto não tivesse a confirmação através da Ressonância Magnética recomendada.
Marcada para o dia 4 de dezembro, pois aguardávamos o nascimento do bebê, que adiantou-se chegando no dia 3.
Fiz o exame, voltei ao consultório no dia 18 e foi solicitado mais um exame, bem específico, chamado Cintilografia de Perfusão Cerebral com Trodat.
Aí não foi mais possível deixar de contar aos filhos. Quando o fiz, todos sofreram junto comigo, mas eu já me conformara com a nova situação e preferi elevar o moral, tomar os remédios, fazer os exames e me preparar para uma suposta nova vida, mas sem deixar minhas atividades, mesmo porque delas dependo para me manter atento, hígido e pronto para cuidar de M, que precisa de mais atenção que eu.
Continuando a história, fui em busca do segundo exame pela AMS, sem sucesso. As clínicas daqui alegaram falta do radiofármaco. Não desisti. Fui a São Paulo, paguei 4.500 reais e obtive o mesmo resultado positivo para Mal de Parkinson, visto a deficiência de segregação de dopamina.
A ironia da história foi a Petros me devolver 175 reais em reembolso dos quase 5 mil que gastei no Laboratório Lavoisier.
E agora? Agora vou tocando minha vida do jeitão que era antes, com menos saídas diárias porque M está só piorando.
Vou levá-la a SP no dia 11 para uma consulta com um tal médico, desses de internet, que ela acredita que fará um milagre. Pelo preço da consulta, 900 reais, pode até ser…
Será uma nova decepção e continuarei dia após dia ajudando-a no que posso.
Faço esse relato para quem conheço bem, esperando que me ajude em breve a arranjar uma boa desculpa para poder sair do grupo sem causar melindres, sem causar desapontamento, sem causar dissabores também a todas essas incríveis colegas, gentis e divertidas, que reencontrei numa época de baixo astral que estou vivendo.
Ali fiz minhas confidências, minhas brincadeiras, minhas gabolices, revelei minhas manias, minha arrogância, minhas alegrias e decepções.
Preciso sair antes que surja uma nova crise aqui por um descuido qualquer, que não será tolerado, devido à fragilidade de saúde de M.
Sou o mesmo, mais cauteloso. Neste mês de maio, dia 19, vivo, cheguei aos 75 anos, mas com a mente de 17 e tudo o que ela continha.