Quinta-feira, 27

5h30- primeira visita aos gatos. Hoje prestei bastante atenção onde deixei o carro para não me atrapalhar na volta.

6h30- de volta, fiz café e espio o noticiário.

7h- aguardo as duas se aprontarem para levá-las ao laboratório, onde farão os exames de rotina.

8h- no laboratório, dona R começa a reclamar da demora do atendimento. Não é demora, é normal. Mas é o costume dela sempre no modo negativo, sempre na expectativa de que qualquer coisa não funcione.

Mas funciona. Então o que sobra? “Essa enfermeira tem a mão muito pesada, ficou doendo a picada.” Sei…

E a outra? Ouço a atendente perguntar “alguém vem retirar o resultado ou será a senhora? ” resposta “acho que o meu cunhado, não sei…” é já olha para mim, que acompanho pela leitura labial.

Apresento-me e confirmo. Volto pata meu lugar. Ela também. Só de teste, pergunto ” a moça marcou meu nome para retirada?”

Resposta: ” não, não disse nada “

Essa é a situação atual: memória recente zero. Tudo que se fala, que se conta, que se combina desaparece em segundos.

Para completar o relato: ontem fiz a segunda visita aos gatos levando dona D comigo para fiscalizar as plantas no apartamento. Ela gosta de molhar e conferir tudo.

Na volta, parei na oficina para recolocar a roda dianteira que foi consertada. Ficou muito bom o serviço mas lá se foram 250 reais, custo da barbeiragem.

15h30- hora de cuidar dos gatos. Está muito calor aqui ameaçando temporal. Vou logo para ligar o ar-condicionado e refrescar o ambiente para eles durante o tempo que fico lá.

E o treino de hoje? Fraco. Apenas andar no parque e conversar com meus conhecidos, das 9h30 às 10h30.

Faço o mate na cuia grande, bem caprichado, erva-mate Legendária.

Dona E lida com uma baciada de massa para esfiha de ricota e manuche.

Manuche é um pão árabe, achatado, coberto com zattar. E zattar é uma maçaroca de temperos sírios com azeite de oliva. Isso tudo para esperar o guri, que deve pousar domingo em Cumbica, vindo dos EUA para compromissos na UFPR.

Dona E trabalha rápido e com habilidade moldando a massa. Enquanto isso a irmã tenta espichar a massa, sem sucesso.

Recomeça, não acerta, mexe de novo, fica pior. Simplesmente não acerta nada. É um desastre completo.

Esquece, erra, olha para o vazio, pergunta alguma coisa aleatória. Encarregada de arrumar a mesa do almoço, faz tudo pela metade, pergunta onde está isso ou aquilo, como se talheres e louça mudassem de lugar.

Esta é uma tragédia anunciada: a decadência progride a cada dia. Chamo de uma pessoa abúlica, palavra que define alguém apático, zero de interesse na vida.

Na próxima semana iremos a Curitiba, onde tem consulta com neurologista. Este recomendou um antidepressivo, que tem a capacidade de deixá-la mais quieta ainda, e um outro para frear a demência.

Deste segundo aí duvido que ajude. Já o primeiro, sim. Mas considerando que não temos certeza se ela toma as doses em quantidade e horário corretos. Dona E tenta controlar organizando as pílulas numa caixinha com o nome dos dias da semana mas o sucesso é próximo de zero.

E a novela do apartamento comprado mês passado segue firme. Os documentos que as duas irmãs e maridos devem apresentar têm vindo a conta-gotas exasperando dona E, ansiada para reformar e tomar posse.

De modo que tudo aqui parece a eleição presidencial: resultado indefinido mas com palpites de todo lado.

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