Uma história comprida

Uma história comprida

Em janeiro de 2008 passamos uma temporada na Praia dos Ingleses com toda nossa família. Tinha sido difícil para M aproveitar o passeio devido ao estado precário de sua saúde, já com severa limitação motora.

Conversa vai, conversa vem, sempre no assunto de tratamentos, ela lembrou-se que uma tia recomendara certa vez uma visita a um lugar ali perto chamado Santo Amaro da Imperatriz.

Nesta cidade vivia um frei, de nome Ugolino, conhecido pelos milagres e curas, atendendo pessoas do país inteiro.

Menos pela curiosidade, mais pelo costume, resolvi ir conhecer de perto, pois não estava mais desperdiçando nenhuma oportunidade que lhe trouxesse alívio no sofrimento.

Não me surpreendi com o que presenciei: um frade bondoso, que não falava coisa com coisa, dizendo generalidades, dando bênçãos, amparado por duas ou três moças vestidas de enfermeiras. Ao lado da sala de atendimento, a tradicional lojinha de lembranças, velas, santos, calendários, terços.

Não levei muita fé mas também não desmereci visto a quantia de pessoas estavam ali. Um que outro relatava casos de curas milagrosas.

De volta a Campinas, a situação não melhorava. Remédios, médicos, homeopatia, orações, espiritismo, bênção de um pastor evangélico, cirurgia espiritual, o que aparecesse eu aceitava.

Resolvemos voltar ao frei porque ele recomendou na primeira visita que era necessário ficar quatro dias com bênçãos três vezes ao dia.

Coincidência ou não, em frente da igreja havia um hotel vinculado à paróquia. Tudo bem, fiz a reserva e viajamos 800km de carro.

Durante três dias repetiu-se a rotina três vezes ao dia: uma conversinha com o frei, ele perguntava todas as vezes do que a pessoa sofria, benzia e nos despachava.

No quarto dia eu já estava exausto daquela história, do calor de janeiro, de carregar dona H, de consolá-la e animá-la, sem perceber nenhum progresso.

Numa dessas saídas da igreja para voltar ao hotel, apenas atravessar a rua, ela não aguentava andar. Não vacilei: peguei no colo e levei até o quarto.

Um sujeito sentado no meio-fio ficou observando a manobra e puxou conversa: o que ela tem? Essa pergunta estou cansado de responder mas fui educado e expliquei.

Ele continuou: minha mulher também sofre disso, ou melhor, sofria porque encontramos uma reumatologista em Curitiba e ela acertou um remédio. Atualmente, minha esposa que estava pior que a sua, já dirige novamente e voltou a trabalhar e viver uma vida normal.

Aí eu é que fiquei curioso e perguntei desta médica. A resposta foi vapt-vupt:  Dra. Sandra Zandoná, reumatologista em consultório na Vila Izabel, Curitiba, avenida Arthur Bernardes e o remédio é Arava. Caro mas eficiente.

Anotei, agradeci, conversei mais um pouco e ele despediu-se para voltar ao trabalho. Estava no mesmo hotel e empreitou uma obra ali perto.

Terminamos a última bênção à tarde. Frei Ugolino previu: daqui um ano vocês voltarão aqui, ela vai estar curada e conseguirá até dançar.

Guardei suas palavras com fé, guardei as palavras do desconhecido com mais fé ainda, arrumei a bagagem, saindo da cidade às 4h da tarde e guiei sem parar até chegar em Curitiba.

No dia seguinte já procurei o endereço, vi que era credenciado e, cheio de esperança, já liguei na expectativa de uma consulta em breve.

Nada feito. Só para o mês de abril. Desisti da história, esqueci o assunto e voltamos para Campinas.

No mês seguinte encontrei outra reumatologista, perguntei do tal remédio mas sem mencionar o episódio vivido em Santo Amaro, do frei, esses detalhes.

Tudo mudou daí em diante. Iniciado novo tratamento incluindo o Arava, houve uma significativa melhora pois em 2006 já estava na fase de cadeira de rodas

A partir de 2009 dona H voltou a se movimentar, dirigir o carro, recuperou boa parte de sua autonomia.

Um ano depois, resolvi visitar Frei Ugolino para agradecer a graça recebida, contar os detalhes e imitar uma pequena dança na frente dele e das moças atendentes, que nos reconheceram imediatamente. Foi um choro só de todas elas. Realmente um milagre tinha se operado, não pelas bênçãos e orações mas por intermédio da providência divina que “escreve certo por linhas tortas” e que colocou aquela pessoa na nossa frente para mostrar o caminho da cura.

Basta perceber seus desígnios, seus avisos que vêm por outra linguagem. No caso, o veículo foi o Frei Ugolino, que na verdade – descobri depois – não era frei coisa nenhuma, apenas um visionário que a paróquia aceitava como residente. Por ser uma pessoa carismática e que atraía muita gente, passou a ser um inocente útil.

Para seus devotos ou simpatizantes pouco importava sua classificação eclesiástica. Era uma pessoa que fazia o bem para todos, um servo e instrumento da misericórdia divina. Enquanto viveu só fez o bem. Somos eternamente gratos por esta graça alcançada por intermédio do inesquecível e abençoado Frei Ugolino, que Deus o tenha em sua glória divina, pois faleceu há alguns anos.

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