Texto lido no domingo

L. Rosenberg – do livro ‘A cada respiração’ (Breath by breath)

Acertando o Alvo

Um lugar onde as ideias de ganho normalmente aparecem, onde as pessoas ficam obsessivas sobre a prática, está na tarefa de permanecer na respiração. Tomamos uma instrução simples e criamos um drama de sucesso e fracasso em torno dela: estamos tendo sucesso quando estamos acompanhando a respiração, falhando não quando não estamos. Na verdade, todo o processo é meditação: estar com a respiração, afastando-se, vendo que nós nos afastamos, gentilmente retornando. É extremamente importante voltar sem sentir culpa, sem julgamento, sem um sentimento de fracasso. Se você tiver que retornar mil vezes em um período de cinco minutos de meditação, apenas faça isso. Não há nenhum problema, a menos que você crie um.

Cada instância de enxergar que você se afastou é, afinal, um momento de atenção, e também uma semente, que aumenta a probabilidade de momentos como esse no futuro. O melhor de tudo é ir além de toda a mentalidade de sucesso e fracasso, entender que nossas vidas são uma série de mudanças entre vários estados. Se você já tivesse um tipo de atenção como um raio laser que nunca vacila, você nem precisaria praticar meditação. O objetivo destas contemplações não é fazer a sua respiração perfeita. É para ver como a sua respiração realmente é.

Numa manhã de verão há alguns anos, eu observei um mestre Zen de arco e flecha dar uma demonstração para um grupo de praticantes de meditação. Cerca de 150 pessoas estavam presentes em um grande campo aberto. Ele tinha estabelecido um alvo e foi em um completo traje de gala japonês, com suas vestes e protetores do pulso e todo tipo de parafernália. Houve uma cerimônia elaborada antes da liberação da flecha – e todos nós esperávamos que fosse atingir o alvo na mosca, houve todos os tipos de cânticos e gestos rituais. O momento chegou, e nós podíamos sentir a tensão. O mestre puxou a corda com a flecha. Nós estávamos prendendo a respiração. Pareceu que ele mantinha a seta ali para sempre. Então de repente ele mudou e atirou para o ar. Houve um gemido imenso da multidão. O arqueiro caiu na gargalhada.

Ele estava nos mostrando que a obsessão com o alvo não era o ponto. Nós, no Ocidente, temos uma mente muito forte do tipo “a fim de”. Nós queremos ir de A para B, de B para C. Idealmente, nós gostaríamos de ir direto de A até Z, adquirir nosso Ph.D. no primeiro dia, pulando todos os passos pelo meio. Iluminação em uma lição fácil. Nossa mente gasta todo o seu tempo calculando. Tudo é um meio para um fim.

Mas isso erra o ponto. Cada momento da respiração é ambos, um meio e um fim. Nós não estamos olhando para a respiração a fim de obter a iluminação. Nós estamos apenas olhando para a respiração, enraizados nela, sentando com ela como um leão. Iluminação, afinal, é apenas mais um osso. É uma ideia que nós temos.

A instrução é para desaparecer na respiração e deixar todos os ossos para trás, todas as preocupações, inquietações, planos, medos, todas as coisas que compõem a mente. E quando ficamos presos nelas novamente, a instrução é retornar suavemente para a respiração. Especialmente no mundo moderno, onde todo mundo está tão impressionado com variedade e complexidade, tão desesperado para se divertir, é um alívio instalar-se neste simples ato repetitivo. A oportunidade que temos de permanecer com a respiração, sempre retornando para ela, é uma chance de fazer uma coisa simples e comum de maneira bem feita, e de tratá-la com grande cuidado e respeito.

Entrar neste espírito de repetição pode ser também uma maravilhosa lição de simplicidade, que também é extremamente necessária no mundo moderno. Muitas pessoas vêm para a meditação esperando alguma prática complexa que leve a uma experiência extraordinária. Eles não podem acreditar que devem apenas se sentar ali e observar a respiração. Mas quando aprendemos a nos render a um objeto simples, nós começamos a ver como esta habilidade é útil em outros aspectos de nossas vidas. Quantas vezes nós escovamos nossos dentes, vamos ao banheiro, vestimos nossas roupas, arrumamos a cama? Nossos dias são dominados por atividades comuns e repetitivas desse tipo, que geralmente tratamos colocando no piloto automático. Isso significa que nós perdemos muito da nossa vida. Esta prática nos ensina a permanecer renovados no meio de toda a atividade de rotina, realmente, a viver nossas vidas.

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