Aprendendo a tocar acordeon
Minha mãe tinha uma fixação com assuntos de música, devido a sua infância com pai violinista, daqueles de tocar em cinema fazendo trilha sonora ao vivo para filmes mudos da época, final dos anos 1920.
Como todos os seus irmãos eram obrigados a aprender algum instrumento musical, nós também seguimos o mesmo destino. Mesmo que nenhum de nós demonstrasse talento para tal, a frequência às aulas era obrigatória.
O único que livrou-se da tirania materna foi o primogênito, mas não escapou da sina, tendo que aprender no colégio interno chamado de seminário. Onde fui parar também por um tempo, mas isso é outra história.
Lá ele tocava bombardino na banda – pouca gente conhece este instrumento – mas surpreendeu os professores revelando uma voz afinada ao cantar. Que lhe serviu para ser titular no coro religioso e até servir de regente. Tinha também um lado histriônico como ator de encenações teatrais no próprio colégio, frequentemente aplaudido pelos colegas e superiores.
O irmão 2 pacientemente estudou acordeon no método do Prof.Terra e Mário Zan. Torturou-nos anos a fio com aquelas músicas xaropes da época, temas de filmes e boleros e tangos chorosos.
Chegou também minha vez, quando minha mãe comprou uma sanfona Scala, conservada até pouco tempo pelo irmão 4, que trocou por uma de melhor qualidade. Mas as interpretações continuaram ruins sempre.
Para aprender corretamente, foi-me designada a professora Ivete Ehlke, com seus imensos olhos escuros e vesgos.
Duas vezes por semana lá descia eu até aquelas lonjuras de São Mateus Velho e recebia as orientações na sala enorme atrás da loja de tintas, sempre com a porta aberta para não ficar a sós com aquela beldade. Pelo menos esta era a interpretação que eu fazia desse arranjo todo, compartilhado por meu primo Paulo César, que teve a mesma impressão.
Na loja ficavam seu Mário, sempre pálido e silencioso, dona Hilda fumando um cigarro atrás do outro (que voz grossa que ela tinha, mano!) e uma atendente de cabelo preto pintado porque não queria ser polaca), da qual ainda vou lembrar o nome.
Assim aprendi os rudimentos e não fiz grande progresso. Preferia o violão, com o qual reinei até hoje, sem também nunca ter melhorado. Sem talento não adianta insistir, sempre ficará no patamar medíocre.
O irmão 4 trilhou o mesmo caminho também sem nenhum sucesso. Mas até hoje reina com isso, cantando no Coral Santa Terezinha. Aí se sai bem, devido à persistência e boa orientação do maestro titular.
A irmã 5 passou pelas mesmas dificuldades, pulou para o violão e logo abandonou de vez a prática.
Nenhum filho ou sobrinho mostrou alguma atração pelo assunto, apesar de pessoalmente ter incentivado meus três filhos. Foram anos de estudo em piano. Cheguei a comprar um, adormecido lá em casa, e apesar de meu exemplo e esforço com o violino, bandolim, violão ficaram todos pelo caminho.
Os tios maternos, como estava contando no início da história, até que foram bem. Vou descrever um por um, começando pelo mais velho e assim sucessivamente. Vamos lá.
1.- Jorge, seguramente o mais entusiasta, aprendeu violino e bandolim; apaixonado por música, tocou até o fim de seus dias, na faixa de 90 anos. Ensinou-me a ler partituras e deu-me um violino que fora de seu pai, trazido da Europa no fim de 1890, na condição de consertar, utilizar e não vender, ficando como guardião dessa pretensa joia.
Na verdade valia pouco porque apesar de antigo não era nenhuma raridade. Apenas um instrumento antigo, com uma história longa e recuperado para funcionar.
É verdade que estava praticamente destruído mas consegui recuperá-lo numa luteria de Bragança, gastando uma nota preta na restauração. Isso despertou uma inveja fatal no seu filho adotivo Vilácio do Amaral. Deve ter falado horrores, pensando que logrei o tio para fazer negócio com um instrumento pretensamente de alto valor. Argumentou que o lugar certo era na Casa da Memória de Samas.
Um erro fatal porque instrumentos musicais, para quem conhece o assunto, são organismos vivos e como tal devem ser tratados, com manutenção e uso diário para não morrerem. Se pendurados num museu não passam de cadáveres. Mas vá argumentar isso com um sujeito raivoso.
Resultado: fiquei com ele um tempão mas não suportando a pressão de minha mãe por essa história onde ela não me apoiou, devolvi para ela a guarda do violino. Mais tarde, ela mesma entregou-o a um neto de seu último irmão, com a desculpa que o guri iria estudar. Passaram-se alguns anos e o irmão 4 resgatou-o quase destruído novamente, empoeirado, a caixa nova sumida, o arco danificado, sem cordas, um verdadeiro desastre.
Fiz nova reforma, novos gastos, e deixei-o em condições outra vez e está comigo até agora. Logo aparece o garoto novamente reclamando a posse dele, alegando ser herdeiro. Ficou querendo. Deve estar me odiando e rogando pragas até hoje mas sem sucesso.
Voltando ao tio Jorge, sempre tive uma ótima convivência com ele. Não sei o porquê mas ele me estimava também. Acontece que sempre o visitava, contava histórias, acompanhava-o nos ensaios com dona Lia Capelli.
2.- Orlando, exímio flautista. Gostava de conjunto-serenatas para tocar chorinhos, valsas e boleros. Convidado uma vez para fazer parte duma Banda tradicional em Londrina, onde morou praticamente a vida toda, declinou do convite ao saber que usavam uniforme. Saiu-se com “não vou desfilar vestido de palhaço”. Nunca mais foi convidado.
3.- Osmar, o melhor de todos, violinista clássico, chegou a tocar na Sinfônica do Paraná. Não era genial mas esforçado e amava a música e o violino. Com sua mulher, Terezinha, pianista e cantor no registro soprano, formava um duo bem afinado. Mas ela era perfeccionista, criticava os pequenos erros dele e mais brigavam que tocavam. Viveu até os 94 anos, tocando na missa das 10 na Igreja Santa Terezinha e conosco nos aniversários da família.
4.- Orley, flautista, parou cedo. Sempre às voltas com negócios de toda ordem, esqueceu a música. Os dois filhos nunca passaram perto de uma partitura.
5.-Guilherme, violonista, morreu cedo antes dos 50. Entendia-se muito bem com meu pai, ao contrário dos outros que não lhe davam muita atenção.
6.- Remin, um sujeito alto, com mãos enormes, tocava cavaquinho, instrumento que sumia perto dele tamanho era seu porte monumental. Durou 98 anos.
7.- Oézir, saxofonista, companheiro de outra geração, junto de Luiz Renato Amaral, Carlos Biancolini, Lamartine, fazia parte de um conjunto que animava os bailes de carnaval de antigamente. Vivo ainda, aos 80 anos, só pensa em dinheiro. Sujeito empreendedor, rápido e cruel nos negócios, enriqueceu em Londrina, onde casou com uma mulher rica e linda. Vive só, numa casa grande espremida entre prédios altos no centro da cidade, e de onde não se afasta de maneira nenhuma.
8.- João Alberto, exceção a todos, nunca aprendeu a tocar, nem a estudar, nem nada. Não foi além de motorista de táxi em Londrina, onde os irmãos o levaram para dar um jeito na vida. Tinha baixo QI, dificuldade para aprender mas sempre foi um sujeito afável, carinhoso com os filhos e sobrinhos. É avô do menino postulante ao violino da história aí de cima.
9.- Leonilda, não teve a oportunidade de estudar música como gostaria porque isso era só para os homens e ela foi escalada para criar os irmãos mais novos, essa turma toda aí do número 3 em diante. Para compensar sua frustração, obrigou-nos a todos a enfrentar as tais aulas, estudar sempre mais e mais e a ser os primeiros da classe. Não foi fácil.
10.- Célia, a segunda, com o mesmo destino. Uma mulher inteligente e decidida.
11.- Rita, a última, teve oportunidade de aprender piano e toca e estuda até hoje; já com 80 anos, continua com muita vitalidade, temperada pelas grandes dificuldades que enfrentou. Enquanto solteira, teve uma vida rósea, com as amigas, bailes, festas e alegrias. O casamento aos 21 anos mostrou-lhe a dureza da vida, começando a trabalhar firme com o marido visionário, criando os filhos, mudando de um lugar para o outro mas sempre otimista e forte. Uma pessoa exemplar.