Uma história lamentável
Utilizo novamente esta expressão, que é título de um livro curto de Dostoiewski, para contar mais uma história lamentável ou tragicômica.
Sempre acontece comigo essas complicações, as quais credito à ansiedade de dona E, ao se defrontar com as ocorrências do dia a dia, que podem acontecer a qualquer pessoa.
Vamos aos fatos.
Anteontem, pela manhã, ela me chamou no quarto onde falava ao telefone com sua irmã. Esta, chorando, contava que finalmente a mãe tinha morrido, depois de longo sofrimento.
Como assim morrido se já se fôra há quatro anos? Pois é, dizia, hoje não achei mais ela no quarto onde levei o café. Acho que morreu finalmente.
E onde ela está? Está enterrada, descansou, etc e tal.
Uma conversa confusa, misturando sonho e realidade. Descobrimos que, ao fazer uma consulta devido a rinite alérgica, a médica receitou um medicamento diferente que alterou sua percepção, tendo um surto psicótico. Assim, entra e sai da realidade e passa umas horas em outra esfera suprarreal.
Entonces que bateu o desespero em dona H querendo a todo custo ir embora. O que não é possível nem fácil nessa atual situação. Dependeria de trocar novamente as passagens, com os sempre pesados encargos, além de não ter garantia do voo, que é vendido mas nem sempre sai.
Se conseguisse chegar em Campinas, ainda teria que fazer o retiro de 15 dias regulamentares, para novo voo a Curitiba, sem ter certeza de não contaminação. Ou seja, uma situação extremamente arriscada para as duas, de grupo de risco pela idade e saúde débil. A segundo está magérrima, deprimida, com crise de pânico e sei mais o quê.
Para encurtar a história, consegui segurar o ímpeto e passar o problema para os parentes próximos delas – poucos e velhos – mas que estão dando uma atenção, que normalmente seria da irmã.
Hoje, uma prima levou-a a uma consulta que tranquilizou o time porque parece ser apenas alucinações causadas pelo tal remédio, já abandonado.
Vai ficar sob os cuidados de uma antiga diarista e duas primas velhotas até que passe o efeito desse psicotrópico, levianamente receitado e, pior ainda, aceito sem dar uma espiada básica na bula.
Imaginem que, então, passam os dias a telefonar uma para a outra, a outra para a seguinte, esta para cá, daqui para lá.
A parte cômica, com perdão do deboche, foi o início da história quando a personagem inicial ligou para o porteiro avisando que tinha um cadáver no apartamento. Calculem o alvoroço porque o empregado é novo no pedaço e acreditou na primeira. Se outro fosse, perceberia que não fazia sentido. Mas já era tarde e a notícia espalhou-se pelo prédio até ser desmentida pelos moradores antigos, que acalmaram a freguesia.
Como dizia meu pai, desgraça pouca é bobagem. Assim, tenho outro episódio para contar, que é o seguinte:
No dia seguinte a esse episódio, ali pelo meio-dia, a menina daqui volta aos prantos para casa, vindo da academia onde passa a manhã toda em atendimento.
Quando acalmou-se, conseguiu contar que um grave acidente de trânsito aconteceu em frente da porta da academia, quando uma jovem frequentadora de 17 anos, ao manobrar o carro novo subiu naquela lombada que delimita os lugares de estacionar. O carro ficou enroscado. Temendo a bronca paterna (os pais estavam justamente dentro da academia na aula seguinte), chamou por telefone um amigo para ajudar a desenroscar o veículo. Esse garoto de 19 anos tentou orientar e entrou parcialmente embaixo para espiar o estrago, mesmo com o motor funcionando.
Não é preciso contar muito para adivinhar o desfecho trágico. Em vez de acionar a ré (esse modelo automático não tem mais a alavanca, opera só por botões no volante…) o carro saltou violentamente para a frente passando por cima do menino, que ficou preso sob as rodas.
Nesse instante a menina estava se preparando para vir embora e presenciou toda o ocorrido. Ligou para o resgate, que em sete minutos já estava tomando conta da situação. Mas o detalhe importante: enquanto não chegava socorro ela debruçou-se junto à vítima e ficou amparando e segurando sua mão na tentativa de acalmar. Um gesto generoso mas com consequências.
Por que? porque o garoto testou positivo para Covid-19 nos exames preliminares ao entrar no centro cirúrgico para ser operado, vitimado por fraturas nas duas pernas, no quadril e hemorragia interna. Mantido em coma induzido, deve ficar uma longa temporada – meses, parece – mas já atualizando, fora de perigo de vida. A família é de posses e vai arcar com uma dívida milionária.
Mas já sinalizou não haver nada contra a pessoa jurídica da Academia, visto ser enquadrado como acidente de trânsito. Não há responsabilidade cível neste ato.
Como ela ficou muito próxima de sua respiração pode ter se contaminado nesta ocasião.
Resumindo: ao saber desta questão do vírus, saiu de casa indo para um hotel por alguns dias até fazer o exame necessário.
Cá estamos nós às voltas com essas encrencas. Coisas da vida como sempre digo. Basta estar vivo para estar sujeito a tais e outras agruras.
Hoje já fiz meu treino externo de 6km e amanhã terei mais. E vamos também para a meditação diária, onde encontro equilíbrio para a paz interior. A paz e a felicidade estão dentro de nós.